Depois de ler o quarto livro de Carla Maia de Almeida, torna-se evidente que a sua escrita persegue a poesia do mundo. Não se trata de lirismo ou de um recurso sistemático ao sentido figurado, assente em metáforas e enumerações. Há, na escolha dos próprios temas, a revelação de uma outra realidade, inclusa e oculta, na banalidade quotidiana. Essa realidade expande-se na observação subjectiva de Não quero usar óculos (ilustrações de André Letria, Caminho), lançando um repto de possibilidade efectiva em todas as coisas que o protagonista imagina ver com os óculos por que espera.
Em Ainda Falta Muito? (ilustrações de Alex Gozblau, Caminho) a realidade poética focaliza-se no espaço e na memória, da viagem e da aldeia, sempre alimentando a subjectividade das personagens.
Neste álbum, o salto é mais radical. Em primeiro lugar, o arrojo de uma narrativa sem personagens humanas ou humanizadas: as casas que moram nas pessoas não são uma unidade e sim partes de um mistério subjectivo que é o da identidade e da biografia (que se complementam e reforçam a dinâmica da relação e construção da tal poética do mundo).
De início, o texto troca as voltas ao leitor e parece conduzi-lo para a animização das casas, quando de repente se começa a associar as divisões ao 'aparelho' emocional das pessoas: o coração, a alma, o medo, o sonho; até os abraços e o vazio que a mudança sempre provoca.
Uma longa metáfora para essa outra visão de si próprio, dos outros e do mundo. A identificação da casa com o sujeito, seja ele qual for, não é uma ideia absolutamente original. Mas há na escolha dos elementos uma coerência que lhe confere unidade e alma.
A cozinha deve acolher todos os cheiros, a ordem de cada um tem sempre espaço para surpresas (como a arrumação do quarto), e há sempre um lugar interior onde procurar um ingrediente essencial para um momento (a despensa) ou um esconderijo onde cada um se liberta do mundo (um lugar secreto).
Carla Maia de Almeida não procura fugir a associações do senso comum, como o céu e o sonho ou o medo e o subsolo. Por isso constrói um livro profundamente honesto: importa que se diga como se vê, como se sente, e não que se almeje dizer outra coisa, dizer diferente.
O golpe de asa está no equilíbrio entre a enunciação metafórica e a descrição subsequente, que nunca deixa o leitor num limbo conceptual ou abstracto. A presença da mudança será o elemento mais interessante porque inesperado. Rompe com o ciclo aparentemente fechado no espaço da casa e introduz a dinâmica do tempo, logo a da realidade poética da vida, que não é estanque.
As ilustrações de Alexandre Esgaio ajudam, pelo seu sentido figurativo e descritivo à legibilidade do texto. As cores fortes e contrastantes, as formas arredondadas, a presença do contorno grosso e o preenchimento a caneta de feltro completam o processo metafórico, regressando sempre à familiaridade da casa. De destacar que todas as divisões desta casa evidenciam apontamentos de habitabilidade e conforto. Não é uma casa modelo ou estilizada e sim uma casa acolhedora, uma possibilidade de mundo. As guardas e o jogo da glória, sinónimo da memória que guardamos das nossas várias vidas, sustentam a ideia principal do álbum: as nossas casas vão-se enchendo, moldando, renovando e esvaziando, abrindo-se a outras, tal como as outras também nos abrem as suas portas e janelas.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012
Onde Moram as Casas ou sobre a Honestidade Poética
Publicada por Andreia em 00:00
Etiquetas: Editoras; Livros
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