Com os três livros de Béatrice Rodriguez na mão (todos editados pela Bags of Books), as narrativas tornam-se ainda mais divertidas. Depois de O Ladrão de Galinhas, A Pesca e A Vingança do Galo não desiludem no efeito surpresa da intriga e no humor dos acontecimentos e das personagens.
Há, em todos os livros, uma missão que enfrenta diversos infortúnios e dificuldades imprevisíveis, que a tornam muito mais interessante aos olhos de quem lê.
Em O Ladrão de Galinhas, uma raposa rouba uma galinha e o urso, o coelho e o galo lançam-se numa perseguição sem tréguas para salvar a companheira. Em A Pesca é a Galinha que persegue, com o caranguejo, o peixe que conseguiu pescar e logo lhe foi roubado, e que tem de levar para casa para alimentar a família. Em A Vingança do Galo, este encontra um ovo que toma para si e leva-o para casa por caminhos e lugares bizarros e acidentados. No final de cada narrativa há uma surpresa que pode ou não decorrer daquela missão.
O seu cumprimento não tem o desfecho esperado, ultrapassando as expectativas que se vão criando ao longo dos acontecimentos. Muitas dessas expectativas resultam do comportamento das personagens e de uma lógica que tendencialmente preside ao mundo. Em última análise, cada livro desmonta ideias feitas sobre essa dita lógica, de cariz social e moral. É uma segunda linha de leitura, mas nessa subtileza reside, com a sua estética próxima da animação e do cartoon, a riqueza destes álbuns.
A construção das personagens deve muito à sua dinâmica corporal: o urso sempre em esforço, arqueado, pesado, a ficar para trás; o coelho, lestro, sempre motivado, a olhar para quem quer alcançar, esbraceja, ajuda o urso no caminho, fala muito; o galo é sério e carrancudo, o símbolo do poder (que é desinvestido da sua função e se sente frustrado); a galinha é independente, bem disposta e pró-activa; a raposa é calma, apaixonada, meiga e dedicada.Tudo se vê pelos gestos e por alguns apontamentos como os óculos de sol da galinha, os dentes arreganhados do galo, as molduras em casa, as mantas no colo dos amigos quando repousam no final...
As casas são sempre espaços acolhedores que se aproximam do ambiente doméstico quase idílico e contrastam com os lugares hostis e fantásticos por onde as personagens se movimentam nas suas aventuras.
Assim, a narrativa equilibra os elementos próximos da realidade (normalmente no início e no final) com os elementos fantásticos próprios dos enredos de acção. Tudo funciona e, juntando os três álbuns, o quadro fica completo. A galeria de personagens que dá corpo às histórias ganha outra dimensão e o leitor pode ler e reler cada um dos livros para adensar as suas identidades. Porque cada intriga depende essencialmente do papel que as personagens desempenham e da forma como se relacionam.
E a empatia que com elas se estabelece abre a porta para um compromisso com a liberdade para cada um escolher ser e fazer o que sente e sabe. Sem paragonas programáticas ou panfletárias.
Parece fácil, não é?

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