Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Os Medos na Pó dos Livros

Há dezenas de livros a que preside a temática do medo, ou simplesmente esconde outras temáticas mais obtusas. Para a nossa conversa, escolhi alguns livros que representassem paradigmas e abordagens originais. O álbum de quem logo me lembro, assim que se fala de medo, é este.

Anthony Browne consegue povoar as páginas de símbolos e subtextos com uma subtileza e economia espantosas. Os pesadelos serão o mote, e a história dos bonecos das preocupações, originários da Guatemala, o pretexto.

No universo do sono e do sonho, o ritmo do texto de Ana Saldanha em O Papão no Desvão (Caminho) partilha muito bem o espaço com a similitude física entre Sofia e o Papão nas ilustrações de Yara Kono. O momento de viragem da narrativa, com o enfrentar do medo pela menina é uma das principais soluções para o conflito.

Lulu ou a Hora do Lobo (João Pedro Mésseder, Daniel Silvestre, Caminho) subverte os clichés e transforma o pequeno Lobo, oportunamente chamado Lulu, na vítima de pesadelos com meninos que mais tarde se descobre terem também medo dele. O humor desconstrói e a escolha das personagens desconstrói uma situação típica, descrita com realismo.

Quando nos distanciámos da especificidade do sono e nos centrámos no medo quotidiano, a primeira escolha foi para Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato (Emily Gravett, Livros Horizonte). A enunciação de medos, os termos científicos, a profusão de elementos visuais nas páginas e a escolha do rato para protagonista dão aos medos uma perspectiva normalizada e comum, plena de sentido de humor que lhe retira a carga de drama insolúvel que muitas vezes tem.
Um álbum que escolhe o acto de assustar para falar de outros medos é Leonardo, o Monstro Terrível (Mo Willems, Orfeu Negro) que não consegue assustar ninguém, porque não tem nenhuma característica distintiva. A necessidade de ser igual aos pares resolve-se com a descoberta de um amigo. Mas nada disto é óbvio neste álbum minimalista no texto e na ilustração, que está magistralmente equilibrado e se destaca pela composição gráfica e especialmente tipográfica.

O rapaz que tinha medo (Mathilde Stein, GATAfunho) desmistifica o medo através de uma prova. Acontece que a prova comprova que o medo só aparece se lhe dermos muita atenção. Este rapaz, infeliz na sua condição, está tão embrenhado em resolver o seu problema junto da Árvore Mágica que não se apercebe dos perigos que corre quando dá de caras com um dragão, uma aranha gigante ou uma bruxa, no caminho. A inocência do rapaz contrasta com a informação que é dada, no texto e na imagem, ao leitor, e aqui reside a inteligência do livro.

Quando o feitiço se vira contra o feiticeiro é que se descobre o medo deste irmão mais velho, que se lembra de pregar uma partida ao mais novo. David Machado explora, em A Mala Assombrada (ilustrações de João Lemos, Presença) com muito sentido de humor, a ideia pré concebida de que os mais velhos têm de ser mais fortes e que muitas vezes esconder os temores à custa dos outros não dá bom resultado.
André Cabelo-em-Pé (Guy Bass, Booksmile) fechou a sessão. Invertendo os estereótipos dos medos infantis, André tem medo de tudo, menos dos seus companheiros de acção - um monstro, um esqueleto e um fantasma - que o ajudam a solucionar um mistério em que ninguém acredita.

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado por ter partilhado a sua selecção com aqueles que não puderam ir, mas que teria gostado certamente. Partilho o gosto por alguns dos livros escolhidos, penso que esta temática esteve bem representada.
Cristina, Évora.

Andreia disse...

Obrigada, Cristina. A próxima será A Família e os Conflitos.