Ano de boa memória para os contos tradicionais
Este ano a literatura tradicional e a literatura infantil e juvenil cruzaram-se com sucesso, o que é um bom augúrio para a valorização de ambas. Francisco Vaz da Silva publicou os três primeiros volumes da colecção Contos Maravilhosos Europeus: Gata Borralheira e Contos Similares, Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje, Mulheres do Outro Mundo, Fadas e Serpentes. A colecção, editada pelo Círculo de Leitores/ Temas e Debates, resulta de um longo trabalho de investigação do professor de antropologia e destina-se ao grande público, com o objectivo de alargar o seu panorama histórico e simbólico destas narrativas, muitas delas perdidas em versões ultra simplificadas. É essencial na biblioteca de qualquer interessado em literatura tradicional e/ ou literatura infantil e juvenil.Perceber as origens permite ler melhor as reescritas dos contos maravilhosos e tradicionais, distinguir o trigo do joio e até identificar características formais e temáticas em textos desconhecidos.
Ian Beck reuniu numa narrativa juvenil, A Verdadeira História de Tom TrueHeart (Presença) várias dessas histórias tradicionais (A Bela Adormecida, João e o Pé-de-Feijão, A Princesa e o Sapo, entre outras) integrando-as a todas no mesmo universo: o dos aventureiros cuja profissão é a de concluírem as histórias que os escritores começam na Agência das Histórias. O motivo é original e a disposição e organização interna da novela são muito equilibradas, de modo a que as histórias tradicionais não se sobreponham à acção principal e pelo contrário funcionem como elementos adjuvantes ao êxito final. Ian Beck tem o cuidado de não desvirtuar o sentido genérico dos contos, escolhendo deles as partes que melhor se adequam à tensão vivida pelo herói e pelos seus irmãos, aventureiros, em apuros. Todo o estilo narrativo respeita o suspense, o medo e a coragem próprios das situações e das personagens das histórias tradicionais, acrescentando-lhes mais motivos e cenários dentro deste universo.
No audiolivro Era, Não Era? da Boca, o histriónico serve as emoções dos contos, escolhidos e contados por narradores orais. A experiência auditiva é sensacional. Os sons, a entoação, as repetições, a música (quando existe), levam invariavelmente o leitor para um local imaginário, uma ilustração mental, seja da Cabaça, do João Ratão ou do Tranglo-Manglo. Recupera-se nesta edição a tradição da narração oral, e alimenta-se a necessidade de se ouvirem histórias, não apenas de se lerem, apesar do livro que acompanha o CD.

«O esquilo vermelho estava triste. Sentia uma dor muito forte porque a mãe tinha morrido e pensava que nunca mais voltaria a ser feliz.» Depois deste duro início, a narrativa enumera as fases por que passa o protagonista: da incompreensão à revolta, do medo de esquecer a mãe à rejeição da ajuda do pai. Centrada no pequeno esquilo, a narrativa dá ao pai um papel discreto mas essencial, como cabe àqueles que ajudam a sarar as feridas, sem terem a pretensão de as apagar de repente. Há nas ilustrações de Rosa Osuna um pormenor delicioso: o esquilo traz sempre consigo o cachecol da mãe, que nunca é mencionado no texto mas que funciona como elemento essencial da narrativa visual, que também retrata a dificuldade de aceitar a ausência. No momento catártico do livro, o pequeno esquilo vermelho liberta o cachecol.
«Um dia de manhã, o urso estava a chorar. O seu amigo passarinho tinha morrido.» O Urso decide então construir uma linda caixa para deitar o seu amigo e tê-lo sempre consigo. Perante a constatação da irreversibilidade da morte, o Urso faz o seu luto e um dia, respondendo ao desejo de sair de casa, encontra alguém que compreende a sua solidão. Só nesse momento o Urso se sente preparado para se separar do amigo.
Num tom mais abstracto e filosófico, Para Onde Vamos Quando Desaparecemos? (Isabel Minhós Martins, texto; Madalena Matoso, ilustração, Planeta Tangerina) tenta responder ao título com diversas possibilidades. Começa por esclarecer o que significa desaparecer em termos semântico-pragmáticos: «Se desaparecemos sem ninguém dar conta, não chegamos a desaparecer. Porque, para alguma coisa desaparecer, é preciso que alguém a tenha visto primeiro e dado pela sua falta depois.// Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.»









O Passeio da Dona Rosa, Pat Hutchins, Kalandraka
Em Eu Só, Só Eu (Ana Saldanha, Yara Kono, Caminho), escolhe-se a perspectiva da criança, que enumera as coisas de que gosta e que agora ainda não tem de partilhar. O que parece ser uma perigosa tendência egocêntrica, ganha outros contornos no final que, sem fugir da mesma lógica, consegue inverter o eventual sentido negativo desse egoísmo.


Em O Livro dos 100 (Masayuki Sebe, Caminho) contam-se figuras até 100 e encontram-se elementos nas ilustrações. A cada nova página dupla, novos animais, novos objectos, novos pormenores. A repetição, tão amada pelos persistentes aprendizes, anda de mão dada com o detalhe da observação.
Sobre O Cavaleiro Coragem (Delphine Chedru, Orfeu Negro) já falámos
É certo que não é lá muito correcto para quem se diz profissional estar a proferir sentenças absolutas, mas não resisto a afirmar que este é um livro lindo (a beleza, nomeadamente a da pintura de Paula Rego, pode ser violenta), com um trabalho gráfico estupendo de Rui Silva, surpreendente, extraordinariamente cuidado. E a história, sangrenta como cabe às tradicionais (apesar da subtileza do texto de Isabel Minhós Martins), ouve-se com prazer. 







