Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

fechar 2011 com (um) pouco (de) swing ii

Ano de boa memória para os contos tradicionais


Este ano a literatura tradicional e a literatura infantil e juvenil cruzaram-se com sucesso, o que é um bom augúrio para a valorização de ambas. Francisco Vaz da Silva publicou os três primeiros volumes da colecção Contos Maravilhosos Europeus: Gata Borralheira e Contos Similares, Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje, Mulheres do Outro Mundo, Fadas e Serpentes. A colecção, editada pelo Círculo de Leitores/ Temas e Debates, resulta de um longo trabalho de investigação do professor de antropologia e destina-se ao grande público, com o objectivo de alargar o seu panorama histórico e simbólico destas narrativas, muitas delas perdidas em versões ultra simplificadas. É essencial na biblioteca de qualquer interessado em literatura tradicional e/ ou literatura infantil e juvenil.
Perceber as origens permite ler melhor as reescritas dos contos maravilhosos e tradicionais, distinguir o trigo do joio e até identificar características formais e temáticas em textos desconhecidos.


Ian Beck reuniu numa narrativa juvenil, A Verdadeira História de Tom TrueHeart (Presença) várias dessas histórias tradicionais (A Bela Adormecida, João e o Pé-de-Feijão, A Princesa e o Sapo, entre outras) integrando-as a todas no mesmo universo: o dos aventureiros cuja profissão é a de concluírem as histórias que os escritores começam na Agência das Histórias. O motivo é original e a disposição e organização interna da novela são muito equilibradas, de modo a que as histórias tradicionais não se sobreponham à acção principal e pelo contrário funcionem como elementos adjuvantes ao êxito final. Ian Beck tem o cuidado de não desvirtuar o sentido genérico dos contos, escolhendo deles as partes que melhor se adequam à tensão vivida pelo herói e pelos seus irmãos, aventureiros, em apuros. Todo o estilo narrativo respeita o suspense, o medo e a coragem próprios das situações e das personagens das histórias tradicionais, acrescentando-lhes mais motivos e cenários dentro deste universo.



Oinc! A História do Príncipe Porco responde a um estímulo diferente e o seu processo de criação implica uma leitura gráfica original de um conto, originalmente grafado no séc. XVI, em Itália. A história é conhecida, não necessariamente na sua versão primeva, mas o que despoletou o reconto foram as litografias de Paula Rego, a propósito deste conto. A editora Orfeu Negro convidou então Isabel Minhós Martins para a adaptação do texto e Rui Silva para o design gráfico do álbum. A História do Príncipe Porco tornou-se menos violenta no discurso escrito, já que as litografias da pintora não são, de todo, apaziguadoras e acentuam, inversamente, a bestialidade, fealdade e desproporção das personagens, de aparência esmagadora. A história ganha então uma linha sonora que não tinha, pelo menos de forma evidente, e o livro enche-se de onomatopeias que resultam também num caos de repetitiva violência. As cores usadas, com o rosa em destaque, remetendo para a cor do porco, a escolha dos tipos de letra e os círculos recortados que permitem ver pormenores das litografias noutras páginas dão ao álbum uma identidade singular, sem nunca pôr em causa as características originais do conto. O seu tom histriónico atinge toda a composição e cumpre magistralmente a sua função literária e estética.


No audiolivro Era, Não Era? da Boca, o histriónico serve as emoções dos contos, escolhidos e contados por narradores orais. A experiência auditiva é sensacional. Os sons, a entoação, as repetições, a música (quando existe), levam invariavelmente o leitor para um local imaginário, uma ilustração mental, seja da Cabaça, do João Ratão ou do Tranglo-Manglo. Recupera-se nesta edição a tradição da narração oral, e alimenta-se a necessidade de se ouvirem histórias, não apenas de se lerem, apesar do livro que acompanha o CD.


Quatro experiências complementares, todas elas fiéis ao património tradicional, todas elas arrojadas, todas elas portas de entrada aliciantes. E nem é preciso bater, basta entrar.

Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

fechar 2011, com (um) pouco (de) swing i

Falar, bem, da morte

Três álbuns sobre a morte saíram no segundo semestre do ano, dois dos quais bem em cima da quadra natalícia. É bom que os temas ditos difíceis, fracturantes ou tabus comecem a constar do universo de leitura dos mais novos. Dois argumentos: não há razão para que um livro sobre a morte não seja um bom livro; se a morte existe na vida e se a leitura também reflecte sobre a vida, porque deixar de fora este assunto?
Não é fácil, pequeno esquilo! (Elisa Ramón, texto; Rosa Osuna , ilustração; Kalandraka) e O Urso e o Gato Selvagem (Kasumi Yumoto, texto; Komako Sakai, ilustração; Bruaá) descrevem o sentimento de perda, a angústia e o processo do luto. Sem eufemismos ou imagens para o sofrimento dos protagonistas, a única opção que atenua a identificação com a realidade é a animização de personagens animais. «O esquilo vermelho estava triste. Sentia uma dor muito forte porque a mãe tinha morrido e pensava que nunca mais voltaria a ser feliz.» Depois deste duro início, a narrativa enumera as fases por que passa o protagonista: da incompreensão à revolta, do medo de esquecer a mãe à rejeição da ajuda do pai. Centrada no pequeno esquilo, a narrativa dá ao pai um papel discreto mas essencial, como cabe àqueles que ajudam a sarar as feridas, sem terem a pretensão de as apagar de repente. Há nas ilustrações de Rosa Osuna um pormenor delicioso: o esquilo traz sempre consigo o cachecol da mãe, que nunca é mencionado no texto mas que funciona como elemento essencial da narrativa visual, que também retrata a dificuldade de aceitar a ausência. No momento catártico do livro, o pequeno esquilo vermelho liberta o cachecol.


«Um dia de manhã, o urso estava a chorar. O seu amigo passarinho tinha morrido.» O Urso decide então construir uma linda caixa para deitar o seu amigo e tê-lo sempre consigo. Perante a constatação da irreversibilidade da morte, o Urso faz o seu luto e um dia, respondendo ao desejo de sair de casa, encontra alguém que compreende a sua solidão. Só nesse momento o Urso se sente preparado para se separar do amigo.
Também este álbum começa com a palavra morte, numa intenção clara e inequívoca de anunciar o tema. Outro elemento que o aproxima de Não é fácil, pequeno esquilo! é a necessidade de se fazer o luto e a sensação, por parte de quem perde alguém querido, de que ninguém o pode compreender.
Ainda, a dificuldade em recordar e a libertação que as memórias provocam, quando naturalmente regressam. Finalmente, a partilha, de forma directa ou indirecta, com alguém que já passou pela mesma experiência.
A qualidade literária e estética dos livros reside na simplicidade com que todas estas ideias se entretecem, resultando o seu sentido da harmonia entre texto e imagem. À expressividade do primeiro álbum, contrapõe-se a contenção do segundo, nas gradações entre fundo e forma e na escolha de elementos a destacar e da perspectiva em que se apresentam, sempre a preto e branco.
Há que ressalvar que O Urso e o Gato Selvagem é mais surpreendente, precisamente pela rigorosa escolha de cada momento narrativo, seja ao nível do texto ou da imagem. Há uma espécie de distanciamento que quebra uma emoção imediata por associação à realidade do leitor. Para além disso, o diálogo entre o urso e o gato reitera esse respeito, enfatizado nas palavras finais do urso. A morte é talvez o tema mais forte do álbum, mas não será o único, porque nada existe isolado no mundo, muito menos na biografia, que é sempre uma narrativa, de alguém.


Num tom mais abstracto e filosófico, Para Onde Vamos Quando Desaparecemos? (Isabel Minhós Martins, texto; Madalena Matoso, ilustração, Planeta Tangerina) tenta responder ao título com diversas possibilidades. Começa por esclarecer o que significa desaparecer em termos semântico-pragmáticos: «Se desaparecemos sem ninguém dar conta, não chegamos a desaparecer. Porque, para alguma coisa desaparecer, é preciso que alguém a tenha visto primeiro e dado pela sua falta depois.// Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.»
Aos sentimentos e emoções dos álbuns anteriores, este responde com uma metonímia: a ausência deixa sempre perguntas por fazer e por responder. A exposição avança para a dinâmica do mundo, com exemplos do que pode desaparecer e do que se pode transformar. A ideia de ciclo, de rotação, de movimento, de acaso, todas cabem em alguma hipótese, em alguma crença, em alguma tese. No final, a resposta à questão principal depende de cada um e pode ser lida de acordo com as suas ideologias. Podemos ainda aceitar as propostas do texto e acrescentar-lhes outras. A linha da vida, do tempo ou do espaço pode bem ser uma estrada, um caminho, um lençol, um rodapé, mas não pode ser nada, como Madalena Matoso reitera.

Com estes volumes, a edição de livros sobre a temática da perda, do luto, da morte e do desaparecimento aumenta não só em quantidade como em qualidade. Não queremos com isto instrumentalizar a sua leitura com intenções terapêuticas. Queremos, pelo contrário, valorizar a qualidade literária e estética dos livros e destacar a sua importância para que a literatura infantil saia do gueto lúdico e superficial como alguns ainda a vêem, como se os seus leitores vivessem arredados do mundo ou tivessem uma total incapacidade de fruir aquilo que é bom (entenda-se bom no sentido estético, não moral).

Quarta-feira, Dezembro 28, 2011

Escrever também é um acto colectivo

Em entrevista ao nº 307 da revista online argentina Imaginaria, o professor e investigador Daniel Cassany discorre sobre a aprendizgem da escrita como acto colectivo, e a sua adequação às novas práticas das crianças e adolescentes. A escrita é hoje uma ferramenta social e a sua aprendizagem deve descolar dos pre-conceitos a que está, tradicionalmente, associada. Para ler aqui.

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

sobre a boa inutilidade da literatura infantil

A questão da utilidade e da inutilidade da literatura é uma velha questão teórica, que tem vindo a ganhar cada vez mais relevância no pensamento sobre literatura infantil. É bom sinal.
Neste artigo brasileiro, defende-se a inutilidade da literatura para crianças. Lendo, compreende-se o seu significado contra o utilitarismo.

fechar 2011 com (um) pouco (de) swing

Abrir as hostilidades

Se o final de 2010 prometia um 2011 terrífico, ninguém se pode queixar de que a promessa não se cumpriu. Todos nos lembramos, ou pelo menos devíamos lembrar-nos, porquê. Blá, blá, blá… blá, blá, blá… whiskas, lá diz o anúncio. Adiante. Pela primeira vez, desde que existe a Carteira de Itinerâncias da DGLB, não foram atribuídas acções às Bibliotecas Públicas, a Carteira não foi sequer divulgada. Muitas Bibliotecas ficaram sem as poucas actividades que podiam oferecer à população, fora do âmbito daquelas que as suas equipas realizaram.
A famigerada palavra Crise serviu os interesses de sempre, com autarquias a justificarem assim os cortes na cultura, especialmente na programação das Bibliotecas e na aquisição de fundos. O PNL ficou ainda mais pobre, e assumidamente mais selectivo (o que, dependendo dos critérios de selecção, pode ser muito bom) e a RBE em risco. Da Conferência Internacional do Plano Nacional de Leitura percebemos (todos os que lá estivemos a assistir) que há um bom entendimento entre o seu comissário, Fernando Pinto do Amaral, e a responsável pela RBE, Teresa Calçada, o que nos dá algum alento, visto que é de um pensamento e de uma linha programática de que a promoção da leitura precisa e não de medidas avulsas. Os resultados dos primeiros cinco anos de PNL foram positivos: mais práticas de leitura na escola e em casa, acesso mais democrático ao livro.
Depois de um abaixo-assinado muito participado, a DGLB manteve a sua condição de Direcção Geral, mas será integrada na Torre do Tombo, o que é no mínimo inusitado do ponto de vista funcional, mas logo se verá. Houve promessas de apoio ao sector do livro e das bibliotecas, nomeadamente com o regresso da Carteira de Itinerâncias. Aguardamos com expectativa.
Pelas bandas das instituições não há grandes mudanças: o bom trabalho é contínuo e mal se vê aos olhos de quem procura grandes iniciativas e ideias geniais. Faz-se por quem anda no terreno, por quem recebe o seu público, por quem ouve e tenta dar voz às pessoas. Na batalha, talvez tenha tombado um ou outro, talvez se tenham juntado mais alguns e os restantes persistem, resistem. A leitura é uma missão de resistência, e quem resiste sobrevive às crises e às trocas de cadeiras que estão necessariamente condenadas a um esquecimento célere pela comunidade. Aqueles em quem confiamos, normalmente não nos esquecemos quem são.

Sábado, Dezembro 24, 2011

É Natal

Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

sugestões de natal x

Fechamos as sugestões de Natal com mais uma dupla: livro e audiolivro. Desta vez é uma sincronia de afectos, ao ritmo de músicas e sons que se conjugam numa família, que assim vive feliz e equilibrada. A história tem tanto de simples como de terna e a música... a música tem aquele efeito de potenciar os nossos sentimentos. Inês Pupo, uma das autoras do livro, explica que na origem da narrativa esteve a necessidade de captar o interesse para a audição. Com este livro, a audição assume o papel principal de ligação directa à emoção. E todos precisamos dela, sempre.



A Casa Sincronizada, Inês Pupo (texto), Gonçalo Pratas (texto, música), Pedro Brito (ilustrações), Caminho

sugestões de natal ix

A colecção Vê por Dentro (Círculo de Leitores) é uma enciclopédia visual que dá a conhecer com detalhe e realismo diversos assuntos, da ciência à história. São doze volumes, entre os quais se contam os Oceanos, Dinossauros, o Corpo Humano, o Antigo Egipto ou os Vulcões.

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

sugestões de natal viii

O melhor livro juvenil editado em Portugal este ano... Falámos dele aqui e ficámos apaixonados!

A Evolução de Calpúrnia Tate, Jacqueline Kelly, Contraponto

Rádio de Histórias

Na época natalícia, o jornalista Fernando Alves conversa com diversas figuras ligadas à literatura, ao livro infantil e à leitura. Todos os dias úteis, na TSF, às 7h50 e 17h50, versão alargada depois das 15 horas.
Rádio de Histórias começou no dia 5 de Dezembro e acaba já amanhã. A boa notícia é que as conversas podem ser ouvidas no site da TSF.
Por lá passaram já a Livraria Salta Folhinhas, Eva Mejuto, João Manuel Ribeiro, Cristina Taquelim ou Isabel Minhós Martins, entre outros.

sugestões de natal vii

Dois livros ilustrados, quatro autores portugueses, duas surpresas e alguma magia. Um escritor consagrado e um estreante que dão alento à produção literária para a infância em Portugal.


A Mala Assombrada, David Machado, João Lemos, Presença
O Mundo no Chão, Nuno Casimiro, João Vaz de Carvalho, Bags of Books

Sábado, Dezembro 17, 2011

Sugestões de Natal vi

Inusitados animais domésticos, sentido de humor e conhecimento da realidade...


Lágrimas de Crocodilo, André François, Bruaá



Crictor, Tomi Ungerer, Kalandraka


Estes dois álbuns são preciosos pela ideia inesperada, pelo tom de naturalidade com que as histórias são contadas e pelo detalhe das ilustrações, que dão aos leitores diversos pormenores que lhes permitirão ir construindo as suas imagens simbólicas da geografia temporal e social.

Mocho Comi na Papa-Livros amanhã, pelas 16h30



Já começa a ser um hábito, rumar à Papa-Livros ao sábado à tarde. Desta vez, para um lançamento da Tcharan. O livro chama-se Mocho Comi e assinam texto e ilustração Carlos Nogueira e Marta Madureira, respectivamente.

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Número duplo da Malasartes acabadinha de sair



A boa nova é que a Malasartes acaba de sair com um número duplo. Matilde Rosa Araújo tem honras, mais do que merecidas, de capa e uma homenagem no interior. Os temas são múltiplos, universais e actuais: novos temas da literatura juvenil, haikus na poesia para crianças, a relevância de obras clássicas, a literatura de fronteira.


Dedica-se também um olhar ao universo da escrita em basco, e há textos em castelhano, para além do galego.


José António Gomes, o director da revista, justifica no seu blogue, A inocência recompensada, o atraso na edição e a necessidade premente de aumentar o número de assinaturas, para que a publicação possa continuar a existir:


«A terminar, um apelo: mais do que nunca, Malasartes necessita de divulgação, de cativar assinantes que ajudem a superar dificuldades de percurso, de conquistar leitores para a causa da crítica e do estudo da literatura para crianças e jovens. Na esperança de que em especial bibliotecas públicas, bibliotecas escolares e universitárias, editoras e outras instituições de mediação possam encontrar nesta revista um meio de informação útil e uma ferramenta de intervenção imprescindível, e de qualidade, para o trabalho de promoção da leitura que desenvolvem.»


Nada mais justo. O Bicho dos Livros junta-se ao apelo, advertindo os eternos quase leitores de que depois não vale a pena chorar pelo leite derramado, bem ao gosto português.


Se pensarmos que há mais de duzentas bibliotecas municipais da rede pública, e pelo menos o dobro de bibliotecas escolares sede de agrupamento, façamos as contas a quantas assinaturas a revista poderia ter, só em território português.

Pelo que sei, o problema reside aqui, já que na Galiza, o número de assinantes, em proporção, é superior.


Espalhem a notícia...

sugestões de natal v

Duas narrativas visuais em que a galinha é uma voluntariosa protagonista...


O Ladrão de Galinhas, Beatrice Rodriguez, Bags of Books


O Passeio da Dona Rosa, Pat Hutchins, Kalandraka

Colóquio Desenho e Imaginação em Évora

Amanhã e depois realiza-se na Universidade de Évora o 1º Colóquio Desenho e Imaginação. Fica o programa.

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

sugestões de natal iv

Para quando a família aumenta, ou de como gerir, bem, afectos em família...

Qual é o lugar do irmão mais velho quando chega o mais novo? Que importância tem para a mãe? O que sente em relação ao bebé que vai nascer?

Em Eu Só, Só Eu (Ana Saldanha, Yara Kono, Caminho), escolhe-se a perspectiva da criança, que enumera as coisas de que gosta e que agora ainda não tem de partilhar. O que parece ser uma perigosa tendência egocêntrica, ganha outros contornos no final que, sem fugir da mesma lógica, consegue inverter o eventual sentido negativo desse egoísmo.


Vai chegar um bebé (John Burningham, Helen Oxenbury, Caminho) acompanha a rotina da mãe com o filho, durante o tempo de gestação do irmão mais novo. As ansiedades da criança e a atenção que lhe é dedicada, em grande parte percepcionada através da ilustração, são o cerne do álbum, muito doce e tranquilo.


Depois de A Mamã e Eu, o pequeno Hugo passa pelo momento do nascimento da irmã como se vivesse uma revolução em A Minha Mana (Emma Chichester Clark, Caminho). Tudo começa com as irremediáveis saudades que sente da mamã, durante a ausência no hospital, seguindo-se o total desinteresse pela irmã e a incapacidade de compreender o fascínio que todos têm por ela. O momento de viragem é fiel ao comportamento infantil e dá-se quando Hugo decide mandar embora a irmã que dorme. Quando a vê, sente uma imensa curiosidade de brincar com ela, reproduzindo o que viu a mãe fazer. E assim se inicia o processo de aceitação e cumplicidade.

Está cá tudo, só faltam mesmo os pais...

Escolher ou não escolher a plataforma digital

Tal como no que ao livro impresso diz respeito, são os mediadores quem veicula ou não às crianças o acesso a plataformas de leitura digitais. Neste artigo, elencam-se os aspectos positivos e negativos desta inovação tecnológica e questiona-se aquilo que ainda é demasiado cedo para saber: como responderão as crianças à leitura de e-books e de enhanced books. Lerão mais? Lerão melhor?

Domingo, Dezembro 11, 2011

Na voragem dos dias... há um elefante em loja de porcelanas



Elefante em Loja de Porcelanas é o mais recente livro da Tcharan, escrito por Adélia Carvalho e ilustrado por André da Loba. A edição é trilingue, em português, espanhol e inglês e a estratégia de se criar uma parceria com a Vista Alegre/Atlantis é bastante inteligente, tendo em conta o tema do livro. Sair das livrarias é muitas vezes o primeiro passo para convidar novos visitantes a entrar.


O lançamento é amanhã, no Porto, pelas 16h30, na loja da Vista Alegre. Em Lisboa será na loja do Chiado, no próximo dia 13. Rui Reininho fará as honras no Porto e Nuno Markl em Lisboa. Adélia Carvalho e André da Loba estarão presentes.

Sábado, Dezembro 10, 2011

Sugestões de Natal iii

Muitas vezes paira pelo Bicho dos Livros uma certa discriminação em relação aos livros não literários. Mea Culpa!

Por isso, sugerem-se dois belos livros ditos de actividades, ou livros-jogo, que desafiam os leitores a raciocinar e a observar.
Em O Livro dos 100 (Masayuki Sebe, Caminho) contam-se figuras até 100 e encontram-se elementos nas ilustrações. A cada nova página dupla, novos animais, novos objectos, novos pormenores. A repetição, tão amada pelos persistentes aprendizes, anda de mão dada com o detalhe da observação.

Sobre O Cavaleiro Coragem (Delphine Chedru, Orfeu Negro) já falámos aqui. O labirinto, que obriga o leitor a percorrer as páginas mais do que uma vez, progredindo e regredindo no jogo, fá-lo entrar no mundo misterioso da cavalaria e da corte. Há passagens secretas, jogos tradicionais, fossos e muralhas, brasões e trajes de época. E sempre a opção de seguir por um ou outro caminho.

e o dom da ubiquidade, arranja-se? iv

Last but not least, que é como quem diz que os últimos são os primeiros.
Amanhã, no Orpheu Caffé, às 16h, há contação de OINC! A História do Princípe Porco. Para deleite dos mais novos e mais velhos, à hora da merenda, serve-se um princípe caprichoso, e muitas outras iguarias da Orfeu Mini.

É certo que não é lá muito correcto para quem se diz profissional estar a proferir sentenças absolutas, mas não resisto a afirmar que este é um livro lindo (a beleza, nomeadamente a da pintura de Paula Rego, pode ser violenta), com um trabalho gráfico estupendo de Rui Silva, surpreendente, extraordinariamente cuidado. E a história, sangrenta como cabe às tradicionais (apesar da subtileza do texto de Isabel Minhós Martins), ouve-se com prazer.

e o dom da ubiquidade, arranja-se? iii

Na Fnac do Colombo, às 16h30, a Gailivro lança Histórias de um Leque Mágico, de Rosário Alçada Araújo (texto) e Carla Nazareth (ilustrações). Ao que parece, o livro será apresentado por "meninos que gostam de ler". E mais não se sabe...

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

E o dom da ubiquidade, arranja-se? ii

Por falar na Pato Lógico, amanhã há um atelier na Fnac de Alfragide, às 15h, para crianças a partir dos 4 anos, em que estas serão desafiadas a construir uma casa para o seu estrambólico. O ponto de partida será o livro Os Estrambólicos, de André Letria. As suas ilustrações servirão de mote a Madalena Marques para orientar a oficina para famílias.

E o dom da ubiquidade, arranja-se?

A coisa não anda fácil. Dezembro acordou cheio de livros a serem lançados, contados, cantados... E não se vê meio de tudo acalmar. É bom, especialmente porque o mundo dos livros para crianças e jovens está vivo, e mesmo que a saúde seja mais cara, parece que irá menos vezes às urgências que a edição em geral.

Amanhã o dia é cheio na GATAfunho, no Espaço Chiado, em Lisboa:


Começa às 11h30, com uma sessão de narração de contos para os mais novos por Leonor Tenreiro.


Às 17h30 lança-se Se eu fosse um Livro (José Jorge Letria, André Letria, Pato Lógico), com a presença do ilustrador e editor que partilhará a sua dupla experiência.

Sugestões de Natal ii



É o segundo audiolivro que a Boca dedica ao público mais novo. Mas, (nunca me canso de repetir) como todos os bons livros, este audiolivro é para todos os públicos. São sete histórias tradicionais de várias partes do mundo, adaptadas, narradas, musicadas e até cantadas. Um elogio à narração oral!

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Na voragem dos dias... um lançamento e um aniversário a não perder

Parabéns aos Planetas, pelos livros e pela inesgotável energia. Amanhã vai haver festança e, como é tradição, deve ser das boas!

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Hoje começa a Greve


«GREVE de Catarina Sobral


Primeiro livro de uma autora portuguesa na colecção Orfeu Mini, GREVE oferece-nos um título apropriado aos novos tempos. Nele, são os pontos que, um dia, entram em greve. Os pontos? Quais pontos? TODOS OS PONTOS!


Publicado no passado mês de Outubro, GREVE resultou de um longo trabalho de edição e montagem do projecto inicial, apresentado por Catarina Sobral às edições Orfeu Negro.


Nesta exposição de originais do livro, o público poderá visitar as imagens de GREVE retiradas da encadernação, desordenadas e despidas de texto, num olhar reservado a outras leituras.

A autora estará disponível para dialogar e para desenhar autógrafos.


A entrada é livre e a saída também...»


(press release da editora)

Terça-feira, Dezembro 06, 2011

Sugestões de Natal i

Uma Canção de Natal, Charles Dickens (texto), Roberto Innocenti (ilustração), Kalandraka


Um clássico de Charles Dickens que, geração após geração, todos conhecemos, geralmente por via secundária. Agora a Kalandraka recupera o texto original, com as suas cinco estâncias, e um cuidado gráfico que remete para a época do mais célebre autor vitoriano. As ilustrações de Roberto Innocenti (que ilustra, também na Kalandraka, os álbuns A Casa – texto de J. Patrick Lewis - e A História de Erika - texto de Ruth Vander Zee) conferem ao extenso livro um realismo figurativo que enriquece a leitura. Para todos os adultos que conhecem a história, mas nunca leram o original, chegou finalmente a oportunidade de ir à fonte perceber porque se mantém viva até hoje a antipática figura de Scrooge no imaginário colectivo. Não será apenas pelo sentido moral da sua transformação, mas muito pela forma como Dickens o constrói.

Sugestões de Natal

Oferecer livros parece sempre uma excelente ideia. Nunca parece ser uma prenda vã, e quem oferece gosta de sentir o conforto desse reconhecimento. Há até quem defenda que os parcos orçamentos familiares levarão muitas pessoas a optar pelos livros por serem em geral mais baratos que muitos outros produtos tradicionalmente ofertáveis, sem que se perca um certo estatuto de dignidade.
Oferecer livros, todavia, pode ser tão difícil como oferecer outro presente qualquer. Se o destinatário não fez referência a nenhum título em particular, se não tem um gosto específico, ou ainda (o mais complicado) não tem grande interesse pela leitura, acertar na mouche pode ser tarefa hercúlea.
No que aos mais novos diz respeito, é preciso ter em conta os pais, ou os adultos que se disponibilizarão a ler com eles. Isto significa lidar com os preconceitos dos mediadores, que muitas vezes rejeitam livros que as crianças adorariam.
A partir de hoje tentaremos dar uma mãozinha aos indecisos com as nossas sugestões de Natal. Caberá a cada um traçar o perfil dos felizardos e, qui ça, arriscar um bocadinho.
Aos adultos convém não esquecer que um livro que as crianças lêem não é necessariamente um livro exclusivamente para crianças...
Boas escolhas!

Paddington em versão ebook

Sairá já no próximo ano uma aplicação que permitirá ler (e não só) as aventuras do urso mais famoso do Reino Unido em suportes digitais. No The Guardian, o autor de Paddington partilha as suas reservas iniciais à edição digital do livro, A Bear Called Paddington, originalmente publicado em 1958, e os argumentos que o fizeram mudar de ideias. Certo é que para além do texto, a aplicação oferece uma animação das ilustrações de R. W. Alley, a possibilidade do leitor tirar fotografias com o urso e até de gravar em vídeo a leitura da história.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Escrever, ler e editar

Write & Read: By Us For Us é um projecto de promoção da leitura e da escrita para jovens entre os 9 e os 14 anos. Foram mais de mil, os que participaram em workshops de escrita criativa por todo o país, desafiados a escreverem contos a partir das suas experiências pessoais, as suas influências literárias ou as suas heranças culturais, nomeadamente de narração oral.
Depois, um júri deliberou e escolheu cerca de 30 textos que foram publicados num livro. O projecto nasceu de uma parceria entre três instituições, uma das quais a HP, que imprimiu os exemplares do livro.
A notícia pode ser lida na íntegra aqui.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Na voragem dos dias... Regressa Cesário Verde



O lançamento é logo à noite, às 21h30, na Livraria Papa-Livros, no Porto. Cesário Verde - Antologia Poética é mais um volume de poesia a ser editado pela Faktoria K de Livros, uma chancela da Kalandraka, depois de antologias de Bocage, Florbela Espanca e Fernando Pessoa.

Uma boa sessão

Na passada 4ª feira continuámos a nossa comunidade de jovens leitores no Sobral de Monte Agraço. Como sempre, alguns participantes desistiram depois da primeira sessão, o que é normal, mesmo que nos entristeça e deixe a pensar nas suas razões.
O lado positivo é que nesta terceira sessão houve alguns regressos e dois novos elementos.
A minha estratégia para esta comunidade é simples: a leitura em presença de algumas partes de As Aventuras de Tom Sawyer com comentários e discussão e a partilha das leituras que cada um faz em casa, depois de requisitar os livros na biblioteca, após cada sessão.
Na 4ª feira decidi alterar a ordem das actividades e comecei pela partilha. Dos sete participantes, um não estava a ler nada (é a terceira comunidade em que participa comigo, e o seu gosto pela leitura continua a ser parco..., mas gosta de participar). Os outros trocaram opiniões. A Mariana é uma verdadeira líder, e uma leitora compulsiva. Para além de Nicholas Sparks e outros best sellers, tinha lido Jane Eyre com algum prazer e agora ia arriscar um romance de Tiago Rebelo. Sugeri-lhe, a propósito, Mulherzinhas que acaba de ser reeditado.
Depois seguiram-se longos resumos de sagas de aventuras. O Cláudio partilhou que tinha gostado de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, que tinha lido na aula de português, o que provocou o diálogo entre pares.
Acabámos em beleza com o episódio em que Tom Sawyer, depois de convencer Becky a namorar com ele, deixa escapar que tinha já namorado com Amy. Para lhes aguçar a curiosidade, prometi continuar a ler os episódios da atribulada relação...
Até agora, o equilíbrio entre o respeito pelos seus gostos e a curiosidade pelas suas leituras a par da imposição de um livro esolhido por mim tem resultado. Desta forma as conversas oscilam entre juízos mais pessoais e debates em torno do que todos lemos. O objectivo é duplo: ajudá-los a ter mais competências de leitura e partilharem os seus prazeres individuais.