Ontem, quando folheei a Ler nº 100, grande happening da imprensa literária, deparei-me com a ausência da habitual página da Carla Maia de Almeida sobre livros para a infância. Naturalmente, sendo um número evocativo e comemorativo, não há críticas, quer a livros infantis, quer a quaisquer outros...
Mas, de entre as várias evocações textuais, fotografias de autores, e listas, só muito fugazmente aparece alguém ou algo que represente a literatura infantil. Nos 100 nomes não há um único autor de literatura infantil, nos 100 livros a mesma coisa e nas 100 capas o mais próximo que se consegue é uma ou outra ilustração assinada por um autor que também ilustre álbuns.
As referências esgotam-se nas 100 ideias para o futuro, com o testemunho da Carla Maia de Almeida, Isabel Minhós Martins, David Machado e Afonso Cruz. Se lermos de fio a pavio os 527 nomes daqueles que deram o seu contributo à revista, aí podemos descortinar Alice Vieira, João Caetano, Alain Corbel ou Fernanda Fragateiro (se exceptuarmos a primeira, todos os outros são ilustradores).
Esta é a legitimação que a literatura e a edição de livros para a infância e juventude têm junto da revista literária de maior prestígio actualmente. Apesar de já constar nas suas páginas, ao que parece acabou de acontecer, já que não aparece no balanço de 24 anos de existência da revista.
José Oliveira, editor da área infantil e juvenil da editorial Caminho, comentou o facto no facebook. Se há alguém a quem todos podemos agradecer pela divulgação de qualidade literária de autores (escritores e ilustradores) portugueses e estrangeiros, é a ele. Assim de repente, há uns trinta anos. Como é que é possível que ninguém da Ler se tenha dado conta de que as crianças que foram crescendo à sua volta leram os livros que editou? Não foi o único, nem se trata aqui de fazer o culto da personalidade, mas apenas de enfatizar a sua competência crítica. Houve autores portugueses em Honour's List de Livros Infantis ao longo dos anos, houve edições estrangeiras, vendas de direitos. Não começou agora o reconhecimento internacional dos ilustradores portugueses.
Francisco José Viegas, no editorial, manifesta o seu orgulho pela amplitude da revista: «(...)não sendo uma "revista literária", a literatura acabou por ser o núcleo duro dos seus índices e das suas referências, mesmo quando as matérias abordadas eram outras e passavam da história à ciência, da fotografia à viagem, da filosofia à jardinagem (...). A Ler assumiu sempre esse carácter flutuane. Na pluralidade dos seus colaboradores, da pluralidade dos seus gostos (e ideias, e projectos pessoais, e origens), na pluralidade das matérias a que se dedicou. Os 100 números até agora publicados dão conta de uma história de 24 anos dedicados aos livros e ao livro.»
Ups, esqueceu-se do livro infantil...
Como mera nota, convém realçar que, apesar de não haver críticas, constam nesta edição todas as crónicas da praxe, não vá o leitor sentir falta de opinião e testemunho, a tipologia de discurso mais reconhecida nos dias que correm...