Falar, bem, da morte
Três álbuns sobre a morte saíram no segundo semestre do ano, dois dos quais bem em cima da quadra natalícia. É bom que os temas ditos difíceis, fracturantes ou tabus comecem a constar do universo de leitura dos mais novos. Dois argumentos: não há razão para que um livro sobre a morte não seja um bom livro; se a morte existe na vida e se a leitura também reflecte sobre a vida, porque deixar de fora este assunto?
Não é fácil, pequeno esquilo! (Elisa Ramón, texto; Rosa Osuna , ilustração; Kalandraka) e O Urso e o Gato Selvagem (Kasumi Yumoto, texto; Komako Sakai, ilustração; Bruaá) descrevem o sentimento de perda, a angústia e o processo do luto. Sem eufemismos ou imagens para o sofrimento dos protagonistas, a única opção que atenua a identificação com a realidade é a animização de personagens animais.
«O esquilo vermelho estava triste. Sentia uma dor muito forte porque a mãe tinha morrido e pensava que nunca mais voltaria a ser feliz.» Depois deste duro início, a narrativa enumera as fases por que passa o protagonista: da incompreensão à revolta, do medo de esquecer a mãe à rejeição da ajuda do pai. Centrada no pequeno esquilo, a narrativa dá ao pai um papel discreto mas essencial, como cabe àqueles que ajudam a sarar as feridas, sem terem a pretensão de as apagar de repente. Há nas ilustrações de Rosa Osuna um pormenor delicioso: o esquilo traz sempre consigo o cachecol da mãe, que nunca é mencionado no texto mas que funciona como elemento essencial da narrativa visual, que também retrata a dificuldade de aceitar a ausência. No momento catártico do livro, o pequeno esquilo vermelho liberta o cachecol.
«Um dia de manhã, o urso estava a chorar. O seu amigo passarinho tinha morrido.» O Urso decide então construir uma linda caixa para deitar o seu amigo e tê-lo sempre consigo. Perante a constatação da irreversibilidade da morte, o Urso faz o seu luto e um dia, respondendo ao desejo de sair de casa, encontra alguém que compreende a sua solidão. Só nesse momento o Urso se sente preparado para se separar do amigo.Também este álbum começa com a palavra morte, numa intenção clara e inequívoca de anunciar o tema. Outro elemento que o aproxima de Não é fácil, pequeno esquilo! é a necessidade de se fazer o luto e a sensação, por parte de quem perde alguém querido, de que ninguém o pode compreender.
Ainda, a dificuldade em recordar e a libertação que as memórias provocam, quando naturalmente regressam. Finalmente, a partilha, de forma directa ou indirecta, com alguém que já passou pela mesma experiência.
A qualidade literária e estética dos livros reside na simplicidade com que todas estas ideias se entretecem, resultando o seu sentido da harmonia entre texto e imagem. À expressividade do primeiro álbum, contrapõe-se a contenção do segundo, nas gradações entre fundo e forma e na escolha de elementos a destacar e da perspectiva em que se apresentam, sempre a preto e branco.
Há que ressalvar que O Urso e o Gato Selvagem é mais surpreendente, precisamente pela rigorosa escolha de cada momento narrativo, seja ao nível do texto ou da imagem. Há uma espécie de distanciamento que quebra uma emoção imediata por associação à realidade do leitor. Para além disso, o diálogo entre o urso e o gato reitera esse respeito, enfatizado nas palavras finais do urso. A morte é talvez o tema mais forte do álbum, mas não será o único, porque nada existe isolado no mundo, muito menos na biografia, que é sempre uma narrativa, de alguém.
Num tom mais abstracto e filosófico, Para Onde Vamos Quando Desaparecemos? (Isabel Minhós Martins, texto; Madalena Matoso, ilustração, Planeta Tangerina) tenta responder ao título com diversas possibilidades. Começa por esclarecer o que significa desaparecer em termos semântico-pragmáticos: «Se desaparecemos sem ninguém dar conta, não chegamos a desaparecer. Porque, para alguma coisa desaparecer, é preciso que alguém a tenha visto primeiro e dado pela sua falta depois.// Para que alguma coisa desapareça são precisos sempre dois.»Aos sentimentos e emoções dos álbuns anteriores, este responde com uma metonímia: a ausência deixa sempre perguntas por fazer e por responder. A exposição avança para a dinâmica do mundo, com exemplos do que pode desaparecer e do que se pode transformar. A ideia de ciclo, de rotação, de movimento, de acaso, todas cabem em alguma hipótese, em alguma crença, em alguma tese. No final, a resposta à questão principal depende de cada um e pode ser lida de acordo com as suas ideologias. Podemos ainda aceitar as propostas do texto e acrescentar-lhes outras. A linha da vida, do tempo ou do espaço pode bem ser uma estrada, um caminho, um lençol, um rodapé, mas não pode ser nada, como Madalena Matoso reitera.
Com estes volumes, a edição de livros sobre a temática da perda, do luto, da morte e do desaparecimento aumenta não só em quantidade como em qualidade. Não queremos com isto instrumentalizar a sua leitura com intenções terapêuticas. Queremos, pelo contrário, valorizar a qualidade literária e estética dos livros e destacar a sua importância para que a literatura infantil saia do gueto lúdico e superficial como alguns ainda a vêem, como se os seus leitores vivessem arredados do mundo ou tivessem uma total incapacidade de fruir aquilo que é bom (entenda-se bom no sentido estético, não moral).

4 comentários:
parecem-me ótimas sugestões! tenho de os ler com atenção e escolher um...
Escolher é difícil. Mas são, garantidamente, álbuns de qualidade.
Excelentes escolhas e bons fundamentos. Acrescentaria um "clássico" do Max Velthuijs, "O Sapo e o Canto do Melro", fabuloso, e outro da muito minha preferência, da Luísa Ducla Soares, "Um Gato Tem Sete Vidas", saído o ano passado.
Enviar um comentário