Ano de boa memória para os contos tradicionais
Este ano a literatura tradicional e a literatura infantil e juvenil cruzaram-se com sucesso, o que é um bom augúrio para a valorização de ambas. Francisco Vaz da Silva publicou os três primeiros volumes da colecção Contos Maravilhosos Europeus: Gata Borralheira e Contos Similares, Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje, Mulheres do Outro Mundo, Fadas e Serpentes. A colecção, editada pelo Círculo de Leitores/ Temas e Debates, resulta de um longo trabalho de investigação do professor de antropologia e destina-se ao grande público, com o objectivo de alargar o seu panorama histórico e simbólico destas narrativas, muitas delas perdidas em versões ultra simplificadas. É essencial na biblioteca de qualquer interessado em literatura tradicional e/ ou literatura infantil e juvenil.Perceber as origens permite ler melhor as reescritas dos contos maravilhosos e tradicionais, distinguir o trigo do joio e até identificar características formais e temáticas em textos desconhecidos.
Ian Beck reuniu numa narrativa juvenil, A Verdadeira História de Tom TrueHeart (Presença) várias dessas histórias tradicionais (A Bela Adormecida, João e o Pé-de-Feijão, A Princesa e o Sapo, entre outras) integrando-as a todas no mesmo universo: o dos aventureiros cuja profissão é a de concluírem as histórias que os escritores começam na Agência das Histórias. O motivo é original e a disposição e organização interna da novela são muito equilibradas, de modo a que as histórias tradicionais não se sobreponham à acção principal e pelo contrário funcionem como elementos adjuvantes ao êxito final. Ian Beck tem o cuidado de não desvirtuar o sentido genérico dos contos, escolhendo deles as partes que melhor se adequam à tensão vivida pelo herói e pelos seus irmãos, aventureiros, em apuros. Todo o estilo narrativo respeita o suspense, o medo e a coragem próprios das situações e das personagens das histórias tradicionais, acrescentando-lhes mais motivos e cenários dentro deste universo.Oinc! A História do Príncipe Porco responde a um estímulo diferente e o seu processo de criação implica uma leitura gráfica original de um conto, originalmente grafado no séc. XVI, em Itália. A história é conhecida, não necessariamente na sua versão primeva, mas o que despoletou o reconto foram as litografias de Paula Rego, a propósito deste conto. A editora Orfeu Negro convidou então Isabel Minhós Martins para a adaptação do texto e Rui Silva para o design gráfico do álbum. A História do Príncipe Porco tornou-se menos violenta no discurso escrito, já que as litografias da pintora não são, de todo, apaziguadoras e acentuam, inversamente, a bestialidade, fealdade e desproporção das personagens, de aparência esmagadora. A história ganha então uma linha sonora que não tinha, pelo menos de forma evidente, e o livro enche-se de onomatopeias que resultam também num caos de repetitiva violência. As cores usadas, com o rosa em destaque, remetendo para a cor do porco, a escolha dos tipos de letra e os círculos recortados que permitem ver pormenores das litografias noutras páginas dão ao álbum uma identidade singular, sem nunca pôr em causa as características originais do conto. O seu tom histriónico atinge toda a composição e cumpre magistralmente a sua função literária e estética.
No audiolivro Era, Não Era? da Boca, o histriónico serve as emoções dos contos, escolhidos e contados por narradores orais. A experiência auditiva é sensacional. Os sons, a entoação, as repetições, a música (quando existe), levam invariavelmente o leitor para um local imaginário, uma ilustração mental, seja da Cabaça, do João Ratão ou do Tranglo-Manglo. Recupera-se nesta edição a tradição da narração oral, e alimenta-se a necessidade de se ouvirem histórias, não apenas de se lerem, apesar do livro que acompanha o CD.Quatro experiências complementares, todas elas fiéis ao património tradicional, todas elas arrojadas, todas elas portas de entrada aliciantes. E nem é preciso bater, basta entrar.


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