Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Pela chegada do Outono, serve-se O Lanche do Senhor Verde

O Lanche do Senhor Verde, Javier Saéz Castán, Orfeu Mini

Com a chegada do Outono, começa a apetecer um lanchinho com chá e compotas num cenário idílico, oportunamente reproduzido de um quadro renascentista.

Pois é num lanche que termina o álbum de Javier Saéz Castán, que a Orfeu Mini lançou no início do Verão.

O livro parece simples, mas como é comum a todos os que são bons, está pejado de pormenores e relações de significação que tornam difícil falar dele.

A ideia é apresentada de forma clara e reiterada no texto final, «Nota de Cor»: o mundo seria muito mais triste se fosse monocromático e é importante que reparemos e prezemos a presença da cor no mundo.

Por isso o álbum proporciona essa experiência a seis senhores monocromáticos que se reúnem a pedido de um deles, o Senhor Verde, para enfrentarem juntos o desafio de abrirem uma porta misteriosa que lhes revelará a maravilha das cores.

Da simplicidade da ideia, que assenta em personagens planas, o autor passa para uma composição gráfica e textual que a adensam. O humor do texto pende para a lógica do absurdo, procurando desviar as evidências do seu lugar mais comum para situações menos confortáveis. Isso acontece de forma muito evidente no texto que sucede a narrativa e que muito acertadamente tem o subtítulo de «O imaginário dos leitores que querem saber sempre mais».

(Podia agora abrir um parêntesis na análise para falar da mais valia do conhecimento contextual para a compreensão da leitura, e de como é gratificante para o leitor continuar a alimentar expectativas no momento pós-leitura...)

O humor também se encontra na ilustração, como se verifica, por exemplo, no momento em que o Senhor Verde está à porta de casa e os outros senhores não o vêem porque tudo é verde (depreende o leitor).

E do humor passamos para a interpretação da escolha do estilo da ilustração. Remetendo claramente para Magritte, os cenários são como jogos de espelhos em que não se sabe o que é a realidade e o que é a fantasia. Assim, desviam-se as perspectivas para enquadramentos que a visão não alcançaria ou introduzem-se elementos desajustados em determinados contextos de comunicação.

Não sei se se pode falar de humor lírico, mas os elementos que caracterizam as personagens, bem como os espaços, todos eles marcados pela diferença de tons sem qualquer traço agressivo, e a escolha do verde como cor de fundo e não outra, conferem ao álbum um sentido bucólico, embora em ruptura com a própria tradição.

A economia textual, parca em texto, é pensada ao detalhe e na contenção reside a riqueza das inferências e da surpresa, que é o objectivo do livro.

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