Segunda-feira, Agosto 15, 2011

a ciência da literatura

A Evolução de Calpurnia Tate
Jacquelline Kelly
Contraponto

Infelizmente não é frequente um livro juvenil ser uma obra literária (a verdade é que se passa o mesmo com muitas narrativas para adultos). Não invalida que a história seja bem contada, sequer que a fórmula não seja louvável, divertida, contagiante… Mas literatura é mais do que isso. E ler este livro, que tem a teoria da evolução das espécies de Darwin como leit motiv, é aceder a uma verdadeira narrativa literária. É uma história de época, na viragem do séc. XIX para o séc. XX no sul dos EUA, narrada na primeira pessoa com desenvoltura, em que uma rapariga de doze anos vai descobrindo um mundo de liberdade através da ciência, à qual acede de forma semi-secreta através do seu excêntrico avô. Esta experiência, que percorre todo o livro, contribui para alterar a percepção que Calpurnia, a protagonista, tem do universo social que a rodeia e que a tenta preparar para uma função que não lhe interessa. Tudo começa nas férias grandes quando a única filha de uma família numerosa se deleita a observar insectos, questionando-se sobre as alterações que sofrem. A curiosidade da menina, que procura respostas junto do irmão mais velho, irá render-lhe a atenção do avô e o acesso a um exemplar de A Origem das Espécies, de Darwin. Assim se inicia uma relação de cumplicidade e confiança, depois da rapariga ver vedado o seu acesso à obra na Biblioteca Municipal. Mas não só de ciência se delineia a narrativa. A ciência é também pretexto para um rigoroso retrato de uma tradicional família sulista, na viragem do séc. XX, com protocolos de comportamento, festas e eventos sociais e lugares bem definidos. Há ainda a passagem de ano (1899-1900) como grande momento de viragem e esperança. Abandonar Calpurnia custa, como sempre acontece com heróis que nos confidenciam algo especial. O leitor deseja ardentemente que a menina não seja obrigada a abdicar dos seus sonhos de trabalhar e ser independente, e nunca deixe morrer o seu espírito crítico. Também sentirá a falta do avô, da mãe, dos irmãos... No fundo, de acompanhar aquela família ao longo do tempo e assistir (espera-se) a pequenas revoluções. Afinal, o lado grandioso da mudança é muitas vezes silencioso e fica por registar.
A Evolução de Calpurnia Tate é um exemplo de uma novela bem construída, em que os temas escolhidos se entrelaçam sem se sobreporem ou soarem forçados, e em que a informação se revela sempre necessária. Como tantas outras obras juvenis, este livro (o primeiro de Jacquelline Kelly) é transversal, que agradará tanto a adolescentes como a adultos.

(versão alargada da crítica publicada na edição de Agosto da revista Os Meus Livros)

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