
Desejo nº. 3
Que as empresas privadas se envolvam e financiem projectos de promoção da leitura.
O serviço público é por definição uma função do Estado, mas não tem de lhe pertencer em regime de exclusividade. No caso da promoção da leitura, também é do interesse dos intervenientes do sector do livro que se leia mais, se não melhor. Editoras e livrarias, pelo menos, têm interesse em divulgar os seus livros, dar a conhecer critérios de selecção, oferecer ao seu público algo mais do que a concorrência. Há já livrarias que acolhem tertúlias, conversas com autores, debates, comunidades de leitores, acções de sensibilização. As editoras começam também a dar alguns passos nesse sentido, mas o facto é que alguns responsáveis da edição e do sector livreiro estão ainda muito longe da realidade da promoção da leitura. É por isso difícil convencê-los a investir verbas em acções cujo retorno não é imediato, sequer quantificável. Os honorários praticados pelos mediadores não são considerados aceitáveis por estas entidades, que pensam em função da relação custo-benefício, ao contrário do Estado que, por estar a prestar um serviço, contabiliza a duração da acção à qual acrescenta o trabalho invisível que o mediador tem na sua criação e preparação.
Da mesma forma que as editoras recusam pedidos de ofertas de livros por parte de escolas e outras instituições, os mediadores não podem trabalhar gratuitamente, por muito que estejam solidários com as entidades que passam por dificuldades financeiras, ou com a causa da leitura por si só. O trabalho de mediação, que as instituições do Estado respeitam, tem de ser igualmente reconhecido pelo universo privado como especializado.
Há, em Portugal, um longo caminho a percorrer no que respeita à sensibilização para a promoção da leitura por parte de outras entidades privadas que não as do sector do livro. Se exceptuarmos a Fundação Calouste Gulbenkian, não há outras entidades privadas que apoiem prémios de literatura infantil, de ilustração ou mesmo projectos de promoção da leitura, de dimensão nacional.
Inversamente, em todo o mundo há parcerias que permitem o desenvolvimento de projectos de leitura e de escrita com uma componente social e uma abrangência muito mais eficaz. O Banco do Livro (secção venezuelana do Ibby) é um exemplo. Outro é o do Prémio Ibby – Asahi Reading Promotion Award, que é patrocinado pelo grupo de comunicação social japonês Asahi Shimbun desde 1986. Aliás, na página do Ibby podem ver-se os seus patrocinadores, que viabilizam projectos específicos, como é o caso da empresa de produção de mel Yamada Bee Farm, que patrocina campanhas de dinamização de leitura em África, Ásia e América Central, incluindo formações com mediadores locais e bolsas de investigação. Também o maior prémio de literatura para a infância e juventude, Hans Christian Andersen Award, conta com o apoio de empresas privadas: até 2008 foi a Nissan Motor Co. quem patrocinou o prémio, tendo sido sucedida pela Nami Island Inc. A Fundação SM, detentora das Ediciones SM apoia o Prémio Internacional de Ilustração da Feira do Livro de Bolonha e o Prémio Iberoamericano SM de Literatura Infantil y Juvenil.
A repercussão mediática deste tipo de apoios é imensa, ao nível da visibilidade e do prestígio, sem contar, obviamente, com o tal sentido de serviço público. Era importante que o mesmo acontecesse em Portugal por parte dos grupos editoriais ou de outras entidades.
Se o Estado não puder continuar a apoiar de forma consistente o desenvolvimento dos hábitos de leitura, editoras, livrarias, distribuidoras, gráficas, autores, ilustradores, designers, revisores, tradutores, entre tantas outras actividades, sairão a perder. Com a crise e sem uma política de incentivo, as pessoas retrair-se-ão na compra de livros e o mercado ressentir-se-á ainda mais. Quem investir agora verá o retorno desse investimento mais tarde. Mas, como em tudo, é preciso mais competência e sensibilidade na forma como se gerem as empresas e se gera riqueza. A da leitura teima em não ser quantificável, o que nos dificulta o trabalho perante aqueles cuja vista vista míope não alcança lá longe…
Quinta-feira, Abril 28, 2011
três desejos para o futuro iii
Publicada por Andreia em 00:47
Etiquetas: Promoção da Leitura
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