
Desejo nº 2:
Que a sociedade civil se empenhe em defesa do serviço público de promoção da leitura.
Quando nos queixamos das acções políticas, dos cortes orçamentais, das estratégias insensíveis e insensatas, muitas vezes esquecemo-nos de que nos cabe a nós, cidadãos, a responsabilidade de responder afirmativamente ao que o Estado nos oferece. O serviço público tem custos elevados e só faz sentido se as pessoas corresponderem. É inadmissível que uma autarquia chegue a gastar perto de €500 (entre o valor da acção, a deslocação, a alimentação e o alojamento) com uma acção como a Arte da Leitura de Pais para Filhos, e só conte com quatro pais, quando poderia ter entre vinte e trinta na primeira sessão e dez, com os seus filhos, na segunda. Muitas vezes as pessoas inscrevem-se e faltam. Há quem defenda, por isso, que se deveria cobrar um valor simbólico pelas ofertas culturais das bibliotecas, tentando vincular as pessoas aos compromissos que assumem. Não nos parece, todavia, um bom argumento: pagaria o justo pelo pecador. Para além disso, a introdução de um valor, ainda que simbólico, abriria um precedente para a instauração futura de uma política de utilizador-pagador, contrária à ideia de Estado que defendemos.
Alguns critérios de atribuição de verbas às Bibliotecas Municipais são o número de frequentadores, as requisições e o número de leitores com cartão. Custará assim tanto ter o cartão da Biblioteca Municipal, subscrever a newsletter e ir, de quando em vez, assistir a um lançamento, conversa, espectáculo, ou simplesmente dar uma espreitadela às novidades?
Com o facebook e outras plataformas sociais, os utilizadores das Bibliotecas podem dar a sua opinião, propor aquisições e actividades. A participação do público pode fazer a diferença na altura em que o executivo camarário estipula as verbas a atribuir a cada área e ajuda os técnicos, bibliotecários, chefes de divisão e até vereadores a defenderem melhor a sua equipa e o seu trabalho. Muitas vezes decide-se com base no número de participantes e não na qualidade das acções. Um espectáculo ou um encontro com um autor pode ser mais apelativo se as sessões se realizarem num auditório com setenta ou oitenta lugares, em detrimento de uma formação com limite máximo de vinte ou trinta participantes, para não falar dos dez ou quinze de uma comunidade de leitores. Cabe por isso ao público manifestar quais os seus interesses, por forma a que os decisores percebam que há outras razões para além dos números.
Para além disso, assiste-se actualmente a cortes profundos na área das bibliotecas fora de Portugal. No Reino Unido, por exemplo, já foram várias as bibliotecas que encerraram e outras tantas que reduziram o seu horário de funcionamento para diminuir custos. Outra ameaça séria é a do pagamento de um valor pelo empréstimo domiciliário. Os bibliotecários, os utilizadores de bibliotecas e algumas figuras ligadas à cultura, entre as quais autores, têm vindo a manifestar-se contra a medida, adiando sine die a sua implementação, que seria a negação do serviço público. Se a biblioteca é por excelência um lugar democrático, em época de crise torna-se absolutamente necessária para que todos, independentemente do seu poder de compra, possam aceder à leitura, aos audiovisuais, à internet. Sem utilizadores, tal serviço deixa de fazer sentido.
Quarta-feira, Abril 27, 2011
Três desejos para o futuro ii
Publicada por Andreia em 22:45
Etiquetas: Promoção da Leitura
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

0 comentários:
Enviar um comentário