Quarta-feira, Junho 30, 2010

Quadros Interactivos

O Plano Tecnológico de Educação prevê que, até 2013, 90% dos professores dominem com alguma proficiência as novas tecnologias ao serviço da educação. Entre elas estão os célebres QIM (Quadros Interactivos Multimédia), que permitem uma ampla combinação de funções e a criação de recursos infindáveis. Em termos teóricos, a suposta mais valência do Quadro é a sua interactividade, conceito muito em voga nos meios educativos. A participação activa dos alunos é recuperada com recurso a ferramentas digitais que normalmente lhes agradam. Este é, no entanto, um mundo que precisa de dedicação e experimentação para ser explorado e optimizado em sala. O deslumbramento e o medo caminham a par, e fazem-nos muitas vezes perder de vista os nossos reais objectivos.

Terça-feira, Junho 29, 2010

Lançar a dobrar


Para quem nunca foi, sugerimos que se aventure. Os lançamentos da Planeta Tangerina fazem jus aos seus livros e lá comemora-se o prazer de ler e editar. Para aguçar o apetite, espreitem o programa.

Domingo, Junho 27, 2010

Livros obrigatórios e releitura



Se já fui acérrima defensora da abolição dos livros obrigatórios no ensino, hoje não consigo manter a mesma posição nem tão pouco defender o inverso.

É um facto que as leituras obrigatórias matam muitos dos livros propostos, aos olhos dos alunos que os vêem como um fardo quase indecifrável e desinteressante que terão de conhecer minimamente. É também evidente que a maioria dos leitores do 11º ou 12º anos não têm maturidade para compreender a ironia subtil de Eça de Queirós ou o alcance crítico de José Saramago. Em consequência, não atingem o nível de cumplicidade com as personagens e o seu contexto que lhes permita 'amá-las' (como destaca Daniel Pennac num dos seus célebres direitos do leitor), sofrer e sorrir com elas... e recordá-las depois.

No entanto, há sempre uma minoria de alunos que, ao aceder a estas obras, acede a um património que começa a explorar com gosto. Há sempre alunos que gostam d' Os Maias ou do Memorial do Convento e, num ensino de massas, uma minoria não é de todo desprezível.

Para além disso, as obras obrigatórias são as primeiras representantes do cânone para o estudante que não tem, em casa, referências de leitura. E se podemos e devemos questioná-lo para que se diversifique e renove, não é suposto que uma formação inicial o dispense, como alicerce para o percurso de cada um.

Nesse sentido, a solenidade d'Os Maias estava normalmente associada à suposta dificuldade de leitura que ainda hoje os alunos perspectivam antes de iniciar o estudo da obra. É relevante que ainda exista esse sentimento, quando há cada vez mais leitores que fazem percursos de consumo de best-sellers sem nunca se confrontarem com a recepção de Literatura.

Finalmente, tem acontecido repetidamente com as últimas gerações o regresso às obras, já na idade adulta. Claro que não assistimos a este comportamento por parte da maioria dos ex-alunos, mas todos conhecemos pessoas que já o assumiram, quer em público, quer circunstancialmente e em círculos mais privados.

Agora que se homenageia Saramago desejando-se que a sua obra não seja esquecida, talvez se deva conceder que nem sempre o Memorial do Convento será bem tratado nas aulas de português. Estariam Os Maias tão vivos se não fossem livro obrigatório? E quantos leitores se ganharam assim?

Cabe aos leitores dedicados a responsabilidade de exigirem elevação no estudo e partilharem a sua paixão pelas obras.

Quarta-feira, Junho 23, 2010

Encontros felizes em Barcelona ii



O Coração de Mãe, da Planeta Tangerina, tem edição catalã pelos Libros del Zorro Rojo (que vale a pena visitar e tem um projecto muito interessante de que daremos conta lá mais para o Verão).

Encontros felizes em Barcelona


Terça-feira, Junho 22, 2010

Se eu fosse... nacionalidades


É o primeiro livro da colecção Se eu fosse... da Booksmile, destinada a crianças a partir dos cinco anos. O texto é de Francisco José Viegas e as ilustrações de Rui Penedo. Assim se pretende que as crianças conheçam aspectos da identidade de diversos países.
O lançamento é amanhã, em Lisboa, na Fábrica dos Pastéis de Belém, pelas 18h30.
Para Setembro está previsto o segundo volume, desta vez dedicado às profissões.

Segunda-feira, Junho 21, 2010

Quinta-feira, Junho 17, 2010

Uma turma ou duas turmas?

No atelier Ver para Crer é possível receber mais do que trinta alunos. Hoje, na EB1 de Massamá, assistiram duas turmas do quarto ano à apresentação dos livros. Os alunos envolveram-se nas escolhas com entusiasmo, discutiram e partilharam as suas opções.
No entanto, ficou claro que o atelier é mais produtivo com uma única turma. Estando em menor número, os alunos podem comunicar entre si, o que é desejável, sem que se crie tanto ruído. Para o sucesso pleno da acção, é essencial que os comentários entre pares fluam, pois só assim se atingirá a cumplicidade necessária em torno do livro como objecto social.
O facto de serem duas turmas pode ser igualmente prejudicial quando os grupos se sentem menos confortáveis na presença uns dos outros, o que não aconteceu hoje. Mas por vezes os alunos inibem-se ou têm atitudes exibicionistas quando estão na presença de colegas que querem impressionar ou de quem não gostam.
A questão é delicada, quando há cada vez menos verba para a promoção da leitura. Se podemos privilegiar 50 ou 60 alunos, não devemos fazê-lo? Por outro lado, até onde podemos flexibilizar as propostas de promoção da leitura sem lhes retirar as condições de sucesso?

Quarta-feira, Junho 16, 2010

Jardim curioso... em Barcelona


Jardim Curioso


Este álbum do americano Peter Brown (colecção Borboletras, Caminho) inspira os leitores para uma nova observação da cidade. A estética e ética ecológicas apoiam-se nos valores universais da determinação e do sonho, muitas vezes personalizados na inocência idílica das crianças.

Todavia, nesta narrativa maioriariamente gráfica, a magia reside no desafio ao olhar, na perspectiva complementar entre a proximidade e a visão geral da cidade, acompanhando o work in progress do pequeno jardineiro.

Se o folhearmos à pressa, não descobrimos a infinitude de pormenores. Como acontece no dia a dia, em que olhamos sem ver, repetidamente, o mundo que reconhecemos sem conhecer.

Quinta-feira, Junho 10, 2010

Uma promessa da Assírio e Alvim...

Espera-se para breve um novo livro dos autores da Enciclopédia Pré-Histórica - Dinossáurios. Recorrendo à mesma técnica de pop-ups, a dupla Matthew Reinhart e Robert Sabuda propõe aos leitores (supostamente aos mais novos...) uma viagem pela mitologia universal. A Assírio e Alvim promete-nos que o livro está quase a chegar...


(directamente do blogue da Assírio)

Terça-feira, Junho 08, 2010

OQO entre os Livros melhor editados em 2009

Os Prémios são atribuídos pelo governo Espanhol, e desta vez a OQO arrebatou o 2º e 3º prémios de Livro melhor editado em 2009, na categoria infantil e juvenil.

O livro vencedor foi Una aldea en tiempos del Románico, de Jaime Nuño González e Chema Román, editado pelo Centro de Estudios del Románico, Fundación Santa María la Real.

¡Cuántas gotas en la ciudad!, de Eva Montanari, ficou em 2º lugar.
Finalmente, e como os últimos são os primeiros: Los mil blancos de los esquimales, tem assinatura da dupla Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso.

Pena é que ainda não tenham chegado a Portugal.

Segunda-feira, Junho 07, 2010

Curso livre sobre contos em Algés

Entre 28 de Junho e 3 de Maio realiza-se em Algés o Curso Livre sobre Contos: Violências, Pedagogias e Imaginários. Pode assistir-se à totalidade do curso ou apenas a um ou dois módulos.
O programa completo pode ser consultado no blogue Oeiras a Ler.

Domingo, Junho 06, 2010

Livros no ePals

Regressada ontem de uma formação de formadores sobre QIM (Quadros Interactivos Multimedia), estou ainda sob o espectro da tecnologia. Por isso, ao esbarrar virtualmente com o ePals fui avançando, procurando entender as suas valências. Trata-se de uma tecnologia colaborativa, em que professores podem aceder a trabalhos de outras turmas e integrar os seus.
A plataforma tem várias funcionalidades, entre as quais sistemas de comunicação entre turmas, à imagem dos antigos 'pen friends', que cultivavam o conhecimento e a amizade à distância através da correspondência, agora através da web. O professor, após registo (bastante intuitivo, como se deseja), pode procurar uma turma disponível em todo o mundo e estabelecer o contacto entre alunos. Mas não apenas a professores se destina o ePals. Os pais têm também o seu lugar, com direito a comunicação virtual.
Mas o que me encantou foi um dos fóruns do site: chama-se ePals book club e são inúmeras páginas com opiniões de adolescentes e jovens sobre livros. Maioritariamente americanos, mas também ingleses, canadianos, coreanos... O site tem activo o tradutor google que permite uma participação mais universal.
Conhecer as tendências, as preferências e até a defesa acérrima (sempre sintéctica) de pontos de vista entusiasma e dá alguma esperança aos mediadores...

Depois do crocodilo, o rinoceronte

A Bruaá dá a boa nova: Shel Silverstein regressa, depois do retumbante sucesso de A Árvore Generosa (é tão bom quando o sucesso e a qualidade estão associados!)

Quem quer um rinoceronte barato? é um álbum pleno de humor, assente em afirmações surpreendentes e imagens demonstrativas. Dito assim, quase parece científico. Por isso, compare-se a retórica deste álbum, que remonta a 1964, com a de A minha mãe de Anthony Brown (Caminho) ou Pê de Pai, de Isabel Martins e Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina).

Ressalve-se que a construção gráfica e a estética da imagem respeitam pressupostos quase inversos de minimalismo com ilustrações sem cor e apenas com recurso a contornos a preto. Sem contexto espacial, ou fundo, cada elemento da página ganha a dimensão da necessidade.

No site da editora podem folhear-se algumas páginas. Mas o melhor é vê-lo ao vivo.

Quinta-feira, Junho 03, 2010

prémios de edição Ler/Booktailors 2010

Pelo terceiro ano consecutivo, estão na rua os Prémios de Edição Ler/Booktailors. O período de inscrições prolonga-se até 30 de Setembro de 2010. A votação final acontecerá entre 15 de Dezembro e 15 de Janeiro de 2011 e a cerimónia de entrega dos Prémios, à semelhança do que aconteceu em edições anteriores, terá como palco as Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim. Uma das novidades da edição deste ano prende-se com a inclusão da categoria de Prémio Especial da Crítica, com um júri composto por um conjunto de jornalistas culturais, que votará o livro do ano. As restantes categorias, que incluem, entre outras, os Prémios para Melhor Design de Literatura, Melhor Design de Não-ficção, Melhor Design de Infantil e juvenil ou Melhor Ilustração Original, transitam do ano anterior.

Para mais informações sobre os Prémios de Edição Ler/Booktailors, pode seguir este endereço.

Terça-feira, Junho 01, 2010

Eu e Tu

Sem nenhuma razão imediata, tentava noutro dia responder a uma pergunta frequente: qual o meu autor preferido. Descobri que já não tenho. Lembrei-me de vários, claro, assim como de livros importantes, que me surpreenderam, perturbaram, viciaram, comprometeram…
E de repente percebi que seria muito mais fácil responder à pergunta se lhe acrescentasse um pormenor de somenos importância: autor preferido de literatura infantil.
É evidente que a questão é redutora, como são todas as que nos obrigam a elencar gradativamente o que quer que seja, sem lugar a ex-aequos. Na impossibilidade de se cumprirem critérios de análise literária, a escolha torna-se eminentemente política: o preferido.
O gosto, nem mais, nem menos: caminho dúbio, periclitante entre o êxtase e a incoerência, afirmativo, contagiante, polémico, consciente e vicioso.
Tal preferência não retira, por isso, relevância e destaque na galeria dos mui nobres autores, a nomes como Leo Lionni, Kate Greenaway, Eric Carle, Shel Silverstein, Beatrix Potter, Quentin Blake, Dick Bruna, Maurice Sendak ou David McKee, por exemplo.
Por vezes, quando me faltam palavras para justificar a qualidade de certos textos, imagens ou sons, que intuo mas não consigo descrever criticamente recorrendo a argumentos da teoria da arte, digo simplesmente que têm alma.
Assim acontece neste caso. A cada livro que conheço, acontece isso. Pode ser um murro no estômago, o coração apertado, uma sensação de apaziguamento, ou o silêncio. Mesmo nas temáticas mais óbvias ou nos diálogos literários há lugar à suspensão, a uma tensão provocada mas eficaz, que nos obriga à cumplicidade com o livro, implicando-nos invariavelmente.
O dom da implicação, mesmo que através da sátira, faz desta uma literatura engajada com o mundo e a vida quotidiana do presente, relacionando-a com a sua herança, a sua história, a sua origem artística ou narrativa.
O conto tradicional tem, em consequência, um lugar na obra do autor, e ressurge neste último álbum, que chega a Portugal praticamente ao mesmo tempo em que é editado na Grã-Bretanha. É uma emoção ler a obra no seu tempo presente, ao invés das anteriormente editadas, e sentir que estou finalmente a acompanhar o processo criativo de Anthony Browne.

Eu e Tu transpõe para o quotidiano o conto tradicional Os Três Ursos, originalmente registado pelo poeta inglês Robert Southey em 1837. Sem alterar a estrutura repetitiva e gradativa da narrativa original (em que as tigelas, as cadeiras e as camas correspondiam ao tamanho de cada urso, sendo as do pai as maiores, depois as da mãe e finalmente as do filho), há na relação familiar dos ursos a inclusão do contemporâneo. A família vive numa moradia, e não numa cabana, numa cidade com bairros bonitos e cuidados, perto de um parque e outros feios e mal tratados. A mãe ursa também trabalha, constatamo-lo porque os pais ursos falam dos respectivos trabalhos no passeio no parque e usam expressões familiares ao discurso oral actual como “Tem graça…”. A pitada de humor de Browne está no momento em que a família se prepara para subir as escadas e descobrir quem lhes invadiu a casa, e quase remete o leitor para O Livro dos Porquinhos: «É melhor ir ver lá acima», sussurrou o Pai. «Vai tu à frente, Mãe.» e noutra página, «Tem cuidado, querida», disse o Pai. A ilustração apenas desvenda uma perna da mãe e o final da sua saia, a sair do ângulo de visão no canto superior direito da imagem. Já o semblante amedrontado do Pai Urso é bem notório, quando segue os passos da mãe, a uma distância de meia dúzia de degraus. O narrador é o filho, e nessa escolha assenta o diálogo implícito que acompanhamos nas páginas no álbum. O Filho Urso é o Eu, o Tu é uma menina que foge da mão da sua mãe, atrás de um balão que passa a voar e se perde. A certa altura a história reencontra a original e a menina percorre os três elementos simbólicos (come os flocos, senta-se na cadeira e deita-se na cama do Filho Urso). Porquê? é a pergunta sem resposta explícita, mas que garantidamente já não é a do desrespeito pela privacidade, nem o excesso de curiosidade, nem a inconsequência das crianças. A história que acompanha a menina é apenas visual, ocupando as páginas da esquerda, a par com a narração do Filho Urso nas da direita. O silêncio não parece leve, percebemo-lo pelas vinhetas que remetem para uma novela gráfica, em tons cinza e magenta, que descrevem com o rigor realista do traço do autor, o contexto desolador e vandalizado do espaço urbano onde vive a menina. Como também é recorrente no estilo de Anthony Browne, a cor dos espaços reflecte e/ou contagia as personagens, perpassando sensações e sentimentos: esta menina, de capuz na cabeça baixa e mãos nos bolsos, está claramente perturbada, sozinha, perdida. A cor da casa dos ursos, onde tira o capuz e deixa solto o cabelo loiro, é quente como devem ser os lares. No entanto, nem nesse momento os objectos adquirem as tonalidades abertas (as tigelas, o padrão rosa do sofá da mãe, o edredon azul) que têm quando são vistos pela família de ursos, porque as cores dependem da perspectiva de quem as vê. Confirmamo-lo quando temos a par a forma como a menina vê a família de ursos – a cinza e magenta – e como a família de ursos a vê – a cores.
Browne domina o ritmo narrativo, criando velocidade com várias imagens por página ou retendo o leitor, quer para enfatizar um momento ou um detalhe, quer para suspender a intriga ou valorizar um sentimento ou percepção. Da mesma forma, o trabalho com o volume e as texturas conferem a cada ilustração efeitos simultaneamente visuais e tácteis que sugerem sempre uma reacção emocional.
Ao contrário do que acontece com o conto tradicional, o desfecho da narrativa não se esgota na fuga e desaparecimento da menina. O Filho Urso permanece a olhar a rua, pela janela fechada e atrás de si e dos cortinados, como se de um cenário se tratasse, distingue-se os contornos de algumas árvores no que parece ser a mancha de um bosque ao anoitecer. Pergunta-se: «Que será que lhe aconteceu?»
Na página seguinte, responde-se ao pequeno urso, com as deambulações da menina, contra a chuva e contra o vento, até finalmente ver uma luz cada vez mais forte que culmina num grande plano do abraço à mãe.
Neste álbum a ilustração tem a função narrativa principal e o texto serve para reiterar a antropomorfização da família de ursos, aproximando-os de indivíduos do presente. A ausência de texto na narrativa que acompanha a menina, e que é maior no todo do álbum, é sintomático do valor da suspensão da comunicação e da impossibilidade de fechar sentidos em lógicas causais ou maniqueístas. Browne antecipa o silêncio com uma epígrafe tão inesperada como clarividente: «Para todos os perdedores.»