Foi ontem a sessão de homenagem a Matilde Rosa Araújo, organizada conjuntamente pelas Bibliotecas Municipais de Lisboa, pela Editorial Caminho e pela Calendário. O painel era de peso e prestígio: Ana Margarida Ramos e Leonor Riscado, ambas professoras universitárias na área da literatura infanto-juvenil (em Aveiro e Coimbra, respectivamente); Jorge Silva, designer e director de arte, com larga experiência na área editorial, e Maria de Jesus Barroso, que deu voz a alguns poemas do Livro da Tila.
A hora era pós-laboral e o local a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras. O auditório tem uma capacidade para aproximadamente 130 pessoas. Talvez estivessem quarenta.
Onde estão os professores das Escolas Superiores de Educação da zona metropolitana de Lisboa?
(Há que referir que o lugar da literatura infantil nas Escolas Superiores de Educação é ínfimo, relegado para um semestre, o que diz muito acerca da sua desvalorização.)
Onde estão os alunos dessas Escolas que serão os educadores de infância e os professores do futuro? Mesmo que muitos não saibam porquê, todos conhecerão o nome de Matilde Rosa Araújo e todos se habituarão a reconhecê-la como uma das autoras incontornáveis da literatura infantil portuguesa.
Ontem teriam uma excelente oportunidade para perceberem porquê, o que é isso da intemporalidade e da história literária, o valor simbólico do texto e a sua relação com a ilustração: a melancolia dinâmica que perpassa por Maria Keil e Madalena Matoso e reflecte a dos próprios textos, líricos e combativos.
Mas como não foram, ficaram sem saber, ou sem poder recordar, ou reciclar, ou até homenagear. Este serviço público, que oferece uma aula sem propina, um encontro sem bilhete, um final de tarde para aprender e pensar, foi apenas parcialmente aproveitado.
A crise, que todos temem e a todos serve de paralisia, deveria levar-nos a zelar pelo serviço público, gratuito, dignificante, cívico e cultural.
Quando os agentes educativos são os primeiros a ignorar a sua dimensão, boicotam, pela ausência de exemplo, o sentido de responsabilidade daqueles que formam.
Que pena a crise atingir as pessoas que estiveram ontem nesta homenagem, que não merecem ter de arcar com as mesmas consequências que a grande massa indiferente e indiferenciada que despreza a sua responsabilidade social!
Sexta-feira, Novembro 26, 2010
Homenagem a Matilde Rosa Araújo: responsabilidade social, outra vez
Publicada por Andreia em 01:10
Etiquetas: Autores, bibliotecas, Editoras; Livros
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2 comentários:
Se me permite, Andreia...
Realmente... a crise maior de que padece Portugal não é a económica. Para a crise económica, poderá haver solução. Para a outra - a Grande Crise do intelecto, da alma, da cultura, da sensibilidade... - não sei se haverá.
Resta-nos apenas escrever/ler e estar e estar e escrever/ler.
Um abraço,
Sara Reis da Silva.
Obrigada pelo seu comentário, Sara.
É verdade. Formar público é muito difícil porque implica formar e mudar mentalidades... Em tempos de velocidade, é uma tarefa lenta e invisível. Muitas vezes, revoltante!
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