Domingo, Novembro 28, 2010

De boas intenções...

A Porto Editora lançou recentemente o livro Contos Pouco Políticos, colectânea de narrativas escritas por políticos a pedido da organizadora. Pela compra de cada exemplar, que ultrapassa os €15, €1 reverte para a Unicef.

Estão reunidas as condições ideais para levar os pais à compra: a curiosidade em ler os textos dos políticos e a caridade natalícia. Pois bem...

E se alguém se lembrasse de pedir aos políticos pequenos tratados de botânica, contos fantásticos ou novelas históricas?

Esta ideia de que toda a gente escreve para crianças é ridícula, não contribui para a relação de qualidade das crianças com a literatura, nem para a afirmação da literatura infantil no cânone literário e num lugar de respeito no mercado.

Nesta colectânea há textos mais competentes, outros menos. Na sua maioria têm uma mensagem moral, e são excessivamente palavrosos, o que demonstra a ausência de técnica de escrita. Explicar tudo, descrever todos os cenários, revela medo de não ser percebido e afasta, obviamente, o texto de uma dimensão literária que implica uma retórica da inferência, da adjectivação, do humor, do sentido figurado. Há nesta colectânea uma regularidade temática e técnica que evidencia precisamente o contrário.

Um livro infantil não deve resultar de uma intenção exterior ao próprio livro. A solidariedade pode ser praticada de várias formas e quer os políticos em questão, quer a editora, teriam certamente outras formas de a praticar, sem comprometer os níveis de qualidade e o rigor estético que caracterizam a literatura de recepção infantil. Muitas vezes, é certo, textos de potencial recepção infantil não atingem esta condição, mas não deveria acontecer que figuras com responsabilidades públicas se envolvessem nesta perversão do mercado.

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