Quando foi anunciada a extinção da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas muita gente ficou aflita, angustiada, revoltada até. Mas essa muita gente é quase ninguém, infelizmente. São autores, tradutores, editores, que contavam com o financiamento de co-edições e o apoio à divulgação da literatura portuguesa. São os Bibliotecários Municipais, que temem pela sua programação do próximo ano, são os colaboradores da Carteira de Itinerâncias que leva a promoção da leitura a estas Bibliotecas.
Isto significa que a maioria das pessoas não faz ideia do que seja a DGLB. Eventualmente não deu sequer muita importância à notícia. Haverá até quem tenha ficado feliz: é menos uma direcção geral, é menos lobby, são menos ordenados chorudos para directores, sub-directores, assessores e afins.
E este é o grande problema da extinção da DGLB, é que a maioria das pessoas não dará por ela. Para além disso, está ligada ao Ministério da Cultura, aquele que em época de crise se torna dispensável, quando se discute o valor do IVA para o cabaz alimentar.
Falemos então do que interessa e do que conheço por experiência.
A DGLB, no âmbito da Carteira de Itinerâncias, ofereceu este ano duas acções de promoção da leitura a cada Biblioteca integrada na Rede de Bibliotecas Públicas, de acordo com as preferências dos Bibliotecários que se candidataram. A DGLB paga aos formadores o número de acções que lhes atribui. Os formadores pagam impostos. Isto significa que não estão no desemprego, contribuem para o IRS e para a Segurança Social e ainda consomem produtos.
Às autarquias compete pagar o transporte, alojamento e alimentação dos formadores. Isto significa ajudar a restauração e o turismo no concelho, divulgando activamente a sua identidade (se tiverem sensibilidade para tal).
No caso das acções que temos na carteira, temos boas experiências com os ateliers para turmas do 3º ciclo. Por causa da DGLB, num dia fazemos dois ateliers, com cerca de 45 alunos no total e os professores que os acompanham. Se os professores forem pessoas interessadas podem replicar os ateliers (que estão feitos para isso) na Biblioteca Escolar ou em sala de aula com outras turmas, potenciando o nosso trabalho, no seu tempo lectivo.
Nesses dois ateliers divulgamos seis livros. Se a Biblioteca Escolar os adquirir, e se em cada turma um ou dois alunos adquirir um exemplar, contribuimos ligeiramente para que as livrarias vendam. Estas livrarias tanto podem ser de grandes grupos como pequenas livrarias da cidade média onde as famílias têm o hábito de encomendar os livros. Se as livrarias vendem, as distribuidoras colocam lá livros e as editoras escoam o seu investimento. É a economia a funcionar.
Se multiplicarmos 22 alunos por turma por 10 ateliers temos 220 alunos espalhados pelo país. Se multiplicarmos este público pelas diversas acções da Carteira, com crianças, jovens, professores, pais e adultos em geral, em que o livro é o elemento central, sempre apresentado, trabalhado e divulgado, estamos a falar de um volume de negócio significativo.
Embora tenha uma formação académica em letras, custa-me a acreditar que bem vistas as coisas, a DGLB, pelo menos a Carteira de Itinerâncias, dê prejuízo. Não é uma Quimonda, não há números de desempregados porque os colaboradores são free-lancers, mas há muita circulação.
Isto sem nunca recorrer ao argumento cultural, educacional, ético e estético, já que esse não se quantifica em cifrões.
Vamos agora ao reverso da medalha. Sem a DGLB havia Bibliotecas Municipais que nunca apresentariam uma formação ou um espectáculo pelo simples facto de que não têm verba para adquirir livros, quanto mais para terem programação paga por si. Mas o público que vai à Biblioteca e pergunta porque não há Hora do Conto, ou porque não se repete aquele espectáculo tão giro que houve no ano passado, é incapaz de escrever um email ou uma carta à vereação ou ao chefe de divisão de Bibliotecas a reclamar.
Pior, em muitos casos a escolha das acções é feita em parceria com os professores. Quando os bibliotecários tentam agendar os ateliers ou os espectáculos os professores levantam problemas logísticos de datas e de cumprimento de programas. Apesar de estarmos a falar de algo que conhecem, de dinheiro público e do respeito pelo trabalho alheio.
O mesmo acontece com iniciativas para o público que não comparece mas vai-se queixando de que ninguém faz nada.
Sem a DGLB muitos bibliotecários não tinham aprendido metado do que sabem hoje sobre promoção da leitura, e sem custos de formação ou de dispensa do serviço, bastando assistir às acções. Quanto se poupa aqui?
Acontece que há pessoas que não aproveitam o que têm, e essas não merecem tê-lo. Mas quem se empenha, quem forma público, quem se esforça, quem acredita numa política de leitura pública, merece.
Não falo do apoio à edição porque não trabalho nessa área, não porque a considere menor, de todo.
A DGLB tem um serviço de promoção da leitura em estabelecimentos prisionais. Alguém sabe?
A DGLB representa o país em Feiras Internacionais de Editores. Alguém sabe?
A DGLB é a entidade responsável pela formação que o Plano Nacional de Leitura deseja que os mediadores tenham. Alguém sabe?
Não é relevante se a Direcção Geral passa a ter outra configuração legal. É relevante que as funções desempenhadas pelo organismo não sejam afectadas.
É também essencial que as pessoas para quem a DGLB trabalha, que são todas, saibam que os seus impostos também servem a causa pública, desde ateliers para os filhos, formação para os professores dos filhos, até formação para si, público adulto que gosta ou não de ler. E é essencial que as pessoas saibam que a cultura é economicamente dinâmica e que, mesmo dependendo do Estado, movimenta sectores privados que contribuem para a circulação. Ainda, o apoio ao autor pode permitir-lhe vender mais, e até vender fora de Portugal, e isso significa direitos de autor que são pagos à Editora Portuguesa, que paga impostos em Portugal. E ainda há a indústria do papel, e as gráficas, e os ebooks...
Como alguém disse... é uma questão de fazer as contas!
Quinta-feira, Outubro 28, 2010
A extinção da DGLB
Publicada por Andreia em 00:53
Etiquetas: Promoção da Leitura
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

4 comentários:
Cara Andreia,
subscrevo na íntegra tudo o que diz sobre a DGLB e aproveito para acrescentar, ainda, uma outra perplexidade: extinta a DGLB encontra-se também extinto o Prémio Nacional de Ilustração. E assim cá vamos continuando a regredir. Que país e que poder!...
Cumprimentos,
Sara Reis da Silva.
Eu pertenço ao grupo dos que beneficiaram da existência da DGLB, dos que fizeram formação em Bibliotecas Municipais, dos que se interessam pela Mediação da leitura e usufruiram de ateliês que reproduziram e multiplicaram com outras turmas e meninos... E mesmo assim considero que sei pouco para poder avaliar melhor o alcance real de tal medida... Obrigada pelo alerta, Andreia. Por mais que façamos, temo as consequências.
Tradutores, editores e investigadores que, no estrangeiro, trabalhamos com a literatura portuguesa sabemos a importancia duma instituiçao como a DGLB. Por esta razao, acabamos de publicar um abaixo-assinado contra uma medida que nos parece ruim e inutil.
http://www.petitiononline.com/dglb/petition.html
Concordo com tudo o que diz no seu comentário. Gostaria de acrescentar o peso que a DGLB teve e ainda tem na construção das bibliotecas municipais, onde se desenrolam as acções de promoção da leitura. A Rede de Bibliotecas Municipais foi construída em parceria entre a DGLB e as Autarquias, com apoio técnico e financeiro. Se calhar, e como diz, também poucos sabem isso.
Esquecem-se do papel cultural e social que estes equipamentos têm desempenhado nos últimos anos.
Enviar um comentário