Domingo, Junho 27, 2010

Livros obrigatórios e releitura



Se já fui acérrima defensora da abolição dos livros obrigatórios no ensino, hoje não consigo manter a mesma posição nem tão pouco defender o inverso.

É um facto que as leituras obrigatórias matam muitos dos livros propostos, aos olhos dos alunos que os vêem como um fardo quase indecifrável e desinteressante que terão de conhecer minimamente. É também evidente que a maioria dos leitores do 11º ou 12º anos não têm maturidade para compreender a ironia subtil de Eça de Queirós ou o alcance crítico de José Saramago. Em consequência, não atingem o nível de cumplicidade com as personagens e o seu contexto que lhes permita 'amá-las' (como destaca Daniel Pennac num dos seus célebres direitos do leitor), sofrer e sorrir com elas... e recordá-las depois.

No entanto, há sempre uma minoria de alunos que, ao aceder a estas obras, acede a um património que começa a explorar com gosto. Há sempre alunos que gostam d' Os Maias ou do Memorial do Convento e, num ensino de massas, uma minoria não é de todo desprezível.

Para além disso, as obras obrigatórias são as primeiras representantes do cânone para o estudante que não tem, em casa, referências de leitura. E se podemos e devemos questioná-lo para que se diversifique e renove, não é suposto que uma formação inicial o dispense, como alicerce para o percurso de cada um.

Nesse sentido, a solenidade d'Os Maias estava normalmente associada à suposta dificuldade de leitura que ainda hoje os alunos perspectivam antes de iniciar o estudo da obra. É relevante que ainda exista esse sentimento, quando há cada vez mais leitores que fazem percursos de consumo de best-sellers sem nunca se confrontarem com a recepção de Literatura.

Finalmente, tem acontecido repetidamente com as últimas gerações o regresso às obras, já na idade adulta. Claro que não assistimos a este comportamento por parte da maioria dos ex-alunos, mas todos conhecemos pessoas que já o assumiram, quer em público, quer circunstancialmente e em círculos mais privados.

Agora que se homenageia Saramago desejando-se que a sua obra não seja esquecida, talvez se deva conceder que nem sempre o Memorial do Convento será bem tratado nas aulas de português. Estariam Os Maias tão vivos se não fossem livro obrigatório? E quantos leitores se ganharam assim?

Cabe aos leitores dedicados a responsabilidade de exigirem elevação no estudo e partilharem a sua paixão pelas obras.

2 comentários:

Belinha disse...

Olá!
Este blogue é interessante!
No meu blogue também tenho sugestões de leituras e respectivos resumos.
Espero a sua visita no meu blogue e sus comentários(opiniões, críticas construtivas, sugestões, etc.)
Os meus melhores cumprimentos,
Belinha

Manuela Caeiro disse...

Ó Andreia... Difícil!
Claro que ler obras e não apenas manuais (ou mesmo Antologias) foi um grande passo!
Leituras obrigatórias justificam-se para definição de um currículo nacional comum, por ano de escolaridade; facilita a linha editorial... e a elaboração de exames...; etc...
Fora isso, podia haver muitos outros critérios de selecção de obras!
Redescobrimos as obras? Eu reli-as anos depois. E quero ainda relê-las um dia...
Voltei tanto a obras obrigatórias como a outras que li por iniciativa própria... Porque em mim ficou o gosto pela Literatura.
A leitura obrigatória pode facilmente produzir o efeito oposto: quer seja pelo mediador, pela atitude do próprio leitor, pela obra em si (assunto, estilo... tamanho de letra, etc...)
Cada leitor/leitura é "um caso"...