Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Está quase...

Quando o mês de Agosto se despede e chega Setembro, está tudo quase a começar... As aulas, o regresso ao trabalho, as novidades editoriais... Vamos deixar de andar por aí para passarmos a ir onde é preciso.

Ainda falta muito?, de Carla Maia de Almeida e Alex Gozblau (Caminho) foi um dos álbuns que se destacaram na época estival, e a que podemos regressar quando tivermos saudades. Saudades dos cheiros, das cores, das viagens de descoberta e reconhecimento, do tempo sem pressas. Quando estivermos ansiosos, como o irmão mais novo da narradora, que pergunta, a cada passo, a cada duas páginas, se "ainda falta muito?"... para chegar a casa da Avó, na aldeia.
A partir de uma expressão comum às crianças em viagem, a narrativa oferece-nos uma experiência em dois planos, que começam por se intercalar e se cruzam a determinado ponto do percurso. A protagonista recorda a casa da avó, a aldeia, os animais e as brincadeiras com o filtro subjectivo dos sentidos e da curiosidade. Ao mesmo tempo, os pais respondem à vez à pergunta do irmão, que ecoa como um refrão: "Ainda falta muito?" Passo a passo, compõem o itinerário, introduzindo elementos da ruralidade e afastando outros do meio urbano que deixam para trás.
A certa altura, as informações dos pais estimulam a imaginação e sentido crítico da menina, que partilha, no seu diálogo com o leitor, novas questões e apreciações a propósito das semelhanças entre montanhas e pontes, da utilidade das amoras para deixar um rasto pelos caminhos da aldeia, ou das lagartixas que irá conduzir pelos campos.
Por um lado o seu discurso soa simples e directo como é comum a uma criança, convocando o seu interlocutor através de interpelações («Perguntem ao meu irmão, que ele diz.» Ou mais à frente: «(...)mas digo-vos já o que faço.»). Por outro, congrega um ritmo e um sentido imagético que lhe conferem uma poeticidade bucólica - atentemos nesta passagem: «Gosto de andar de carro,/ porque é correr sem parar.// Não tão depressa como o sol,/ que gira sempre a meu lado,/ girassol muito apressado.// O vento é quente e doce/ cheira a urzes e a estevas.// E aos meus cereais com mel.»
O tratamento gráfico demonstra nesta página, como nas outras, imenso cuidado e uma leitura muito precisa da intenção narrativa, o que se verifica pela disposição do texto, cuja mancha visual se associa a estrofes de um poema. Efectivamente, a construção retórica do diálogo entre o irmão mais novo e os pais sublinha o lirismo do álbum através da sucessão e repetição de metáforas por parte ora do pai, ora da mãe, que surgem aqui numa cumplicidade que sempre se complementa, o que não é de todo um elemento menor a reter dos múltiplos sentidos do álbum.
Ainda falta muito? fala-nos de e para um lugar íntimo onde memória significa eco e magia: fragmentos que se associam em sensações nem sempre fiéis à realidade mas que permanecem, até nova experiência.
Assim se passa com esta família, em que o irmão mais novo se estreia, a irmã se entusiasma com o seu papel de guia e os pais enriquecem o universo simbólico dos dois filhos. O desfecho confirma, através da narradora, a relação equívoca que existe muitas vezes entre a memória e a realidade, afectada pela dinâmica do tempo. Ao chegar, as imagens da aldeia não correspondem integralmente ao que agora vê. «Se calhar é assim mesmo./ Tudo muda, como eu mudei,/ naturalmente.» No entanto o diálogo entre a mudança e o reconhecimento segue logo na página seguinte, a última, quando a menina identifica no irmão um comportamento que também ela já teve, quando era mais pequena.
A viagem é por isso um pretexto para ver para dentro e contemplar, descobrir e relacionar, crescer e fortalecer laços e afectos. A viagem é um tempo e os seus vestígios, o que fica, o que é dito, o que se deseja partihar e o que nunca se repete.
O que ficamos a saber destas personagens, muito chega-nos através da ilustração de Alex Gozblau. Justo será até dizer que sem ela este álbum perderia grande parte do seu sentido. Cada expressão ou movimento da menina transpira felicidade, seja quando fecha os olhos por trás dos enormes óculos redondos que a tornam ainda mais curiosa, seja quando os abre, assim como a boca e as mãos em plena explicação, seja quando voa, enorme, por cima do carro e das flores com o mesmo tamanho, quase alcançando as núvens. O cabelo ao vento, os olhos de espanto e temor, ou dúvida, a atenção, a pose...
Corpos e objectos são trabalhados através de uma teia cromática, de luz e sombra, proporções e texturas, onde podem constar desenhos figurativos a carvão, fotografias ou colagens, que colocam as figuras humanas em contextos profusos em estímulos, sem nunca as minimizarem. Pelo contrário, a dimensão de cada espaço aplica-se à perspectiva da personagem, nunca o contrário, porque este é o seu mundo e não o mundo em que vivem, o que é bem diferente.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Andar por aí V

Estamos quase a deixar de andar por aí, agora que o mês de Agosto termina. Mas ainda há tempo para dar um salto à livraria da Assírio e Alvim, na R. Passos Manuel, em Lisboa, e visitar a Feira das Viagens. Só até 2ª feira, incluindo amanhã.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Capicua

Ao passar em revista posts antigos descobri um do Sérgio, que data de 08.08.08. Fala sobre A mão direita do Diabo, de Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado, que a Assírio e Alvim em boa hora reeditou. Não podia ter sido uma coincidência mais espirituosa!
Lembrou-me que, como missão de final de férias, deveria ocupar-me da leitura de Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, o último volume da trilogia. Até, pelo menos, 09.09.09...

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

andar por aí iv

As Bibliotecas de Jardim em Braga encerram no final do mês. Neste caso, os protestos são um bom sinal! Para ler aqui.

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Beatrix Potter e a importância dos animais na literatura infantil

Na página da Unidade Curricular de Literatura Infantil da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, encontrei há tempos um artigo sobre a relevância dos animais na literatura de recepção infantil. Analisando alguns dos livros de Beatrix Potter, cruzam-se simbologias e heranças narrativas, ilustração e literatura popular. É um ponto de partida para quem queira aprofundar ou reflectir sobre o sentido destas personagens, geralmente animizadas, mas mais densas do que aparentam. O texto pode ser lido aqui.

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Pequenas grandes novidades de Leo Lionni

A Kalandraka tinha anunciado, logo no início do Verão, estas quatro novidades. São livros sem texto, de Leo Lionni, que respondem, cada um a uma questão básica: o quê, quem, quando e onde. A personagem principal é Frederico (que deriva do álbum com o mesmo nome), o ratito que, como a cigarra, não trabalha no Verão para comer no Inverno, mas aquece com as suas palavras os amigos ratos, depois de a comida deixar de lhes dar o alento de que precisam.

Estes quatro pequenos álbuns têm cerca de dez centímetros de lado, com páginas cartonadas e de arestas curvas, para facilitar o manuseamento.

Em Onde?, por exemplo, as respostas começam logo nas guardas, com episódios lúdicos que jogam com a anatomia física dos ratos, levando a inferências cómicas.

As associações são inteligentes, fugindo de esterótipos como o queijo ou o acto de roer, que nunca estão presentes. Em contrapartida, o sapato em impecável estado ou a garrafa cujo gargalo é apertado levam o leitor a especular sobre o desenrolar das cenas. A técnica da colagem e os materiais escolhidos (atente-se no padrão escolhido para as folhas da árvore) conferem aos elementos texturas ricas, profundidade e um jogo cromático que, respeitando a correspondência com o real, opta por uma paleta bem definida, para que os contrastes ajudem a delimitar as formas. É pelo uso da cor e da textura macia ou rugosa, lisa ou com volume, que cada elemento se define e ganha movimento, como se verifica pelas posições dos dois ratos, sempre em situação de comunicação.
A existência de dois ratos e a sua relação não é inocente, já que aproxima o leitor dessa relação dialógica e o convida a entrar no jogo, visualizando momentos de cumplicidade e intervindo neles, ao imaginar o que não é dito mas sugerido. Quem está de entrada e de saída? Será que o outro amigo se aproximará ou, ao contrário, aguarda que Frederico se junte a ele? E quem faz as descobertas, Frederico ou o amigo? O jogo de escondidas entre a erva pode resultar numa descoberta, o interior do sapato é um mistério, assim como o da caixa, e a entrada da toca, ou o ramo da árvore podem convidar a entrar e a subir. Finalmente, quem é Frederico? Se na capa os dois ratos caminham em sentidos opostos, já na contracapa encontramos um às cavalitas do outro. É um convite a brincar, como acontece com dois amigos na interacção com o mundo ao seu redor e na forma como o lêem em conjunto.

Sábado, Agosto 22, 2009

Andar por aí III

Na 5ª feira passada, duas mães tentavam convencer as suas filhas (que rondariam os 4 anos) a escolherem um livro para levarem. Foi na Fnac do Chiado, pelas quatro da tarde. Apesar do espaço exíguo dedicado aos mais pequenos e da concorrência 'desleal' que alguns brinquedos fazem aos livros, as mães cumpriam pacientemente a sua função de mediadoras.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

ensinamentos de viagem... Gulliver


As viagens de Gulliver, Jonathan Swift, Edições Nelson de Matos

Ensinamentos de Viagem

Deitemo-nos a adivinhar quem terá escrito a citação seguinte, e quando o terá feito. Percebamos em seguida que a viagem, real ou imaginária, é muitas vezes um recurso para analisarmos com distância o que de perto vivenciamos diariamente. Há também reflexões que tendem para a intemporalidade, quando as desejávamos parte do passado.

«Para eles a fraude é um crime muito mais grave do que o roubo, e muito raramente não é punido com a morte. Segundo eles, cuidados e vigilância acompanhados por uma inteligência vulgar podem salvaguardar os bens de um indivíduo dos ladrões, mas a honestidade não tem qualquer tipo de defesa contra uma astúcia superior.
(...)
«Também consideram que a ausência de virtudes morais é devida a uma falta de capacidade superior do intelecto, e seria perigoso que tais cargos [públicos] fossem colocados nas mãos de pessoas tão pouco qualificadas.
(...)
«Ao referir estas leis e aquelas que de seguida irei mencionar, saiba-se que apenas me estou a referir às suas instituições originais, e não às corrupções mais escandalosas nas quais este povo caiu devido à natureza degenerada do homem.»
pp. 75-77

Por fim, constate-se que a obra pode ser considerada um clássico juvenil.

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

Para ver com tempo II

O site da revista Andersen, que criou e continua a promover um prestigiado prémio para livros infantis em Itália, mora aqui.
A visita quer-se demorada, com direito a paragens em todos os vencedores do galardão, desde 2001, sem esquecer os vários escalões e categorias. Alguns dos livros estão traduzidos em Português, por isso vale a pena percorrer as listas para reconhecer uns e desejar que outros cheguem depressa.Também há informações sobre outros livros, promoção da leitura, o mundo editorial, bibliotecas e livrarias. Está em italiano mas, até para mim que sou completamente inapta para línguas, não é impossível de acompanhar.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Novas ilustrações para clássicos da literatura

A Walker Books, casa editorial sediada em Londres, juntou numa colecção, e a preços acessíveis, uma selecção de clássicos da literatura com ilustrações de alguns dos melhores ilustradores contemporâneos.

Dela fazem parte títulos como "Alice no País das Maravilhas", "Dom Quixote" ou "O Vento nos Salgueiros".
O The Guardian apresenta cinco livros da colecção, aqui.

Cá por casa... Tom Sawyer

A citação de ontem está logo na primeira página de As Aventuras de Tom Sawyer, na recente edição da Biblioteca Juvenil que as Edições Nelson de Matos estão a construir passo a passo. Fazia falta recuperar este clássico, por ser um dos pilares fundadores da literatura juvenil moderna, em que um rapaz não representa tipos sociais ou morais mas sim a sua condição imperfeita e individual, num contexto próprio do sul dos Estados Unidos na segunda metade do séc. XIX.

Mas, e essa é a mais pura das verdades, a nossa ansiedade em ter o livro resultava do nosso desejo pessoal de o lermos. Por muito relevante que a obra seja, neste caso foi a nossa condição de leitores que imperou!

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Cá por casa...

«A senhora idosa puxou os óculos para baixo e olhando por cima deles, esquadrinhou o quarto. Depois voltou a encavalitá-los no nariz e olhou por baixo deles. Raramente ou até nunca olhava através deles para procurar uma coisa tão pequena como um rapaz, já que aquele era o seu par de luxo, o orgulho do seu coração, e apenas serviam para serem "exibidos" não para serem utilizados; via tão bem por eles como pelas portas de um fogão. Por breves instantes pareceu indecisa e disse, não demasiado zangada, mas num tom de voz suficientemente alto para que todo o mobiliário a ouvisse:
- Bem, se te ponho as mãos em cima...»

Sábado, Agosto 15, 2009

Para ver com tempo

O site da ALA (American Library Association)/YALSA (Young and Adult Library Services Association) inspira os visitantes para desenvolverem iniciativas de promoção da leitura com jovens e adolescentes.
A YALSA promove a semana da leitura para adolescentes, e apresenta no site as condições de participação, regras e prazos a cumpir e sugestões para levar o barco a bom porto. Muitas delas podem ser postas em prática isoladamente e, muito possivelmente, com sucesso.
O top 10 do ano também lá está. Uma lista de publicações fazem crescer água na boca a quem se debate diariamente com as resistências deste público em relação à leitura.
Há muito para saborear...

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Leituras adolescentes

Uma razão por que é bom passar o mês de Agosto em Lisboa: permitir-me ler um livro há muito emprestado num final de tarde abrasador. E pressentir que preciso de o fazer mais vezes.

Ursula K.Le Guin, Tão longe de Sítio Nenhum, Editorial Fragmentos

Não sei se este livro é uma leitura adolescente, visto que o protagonista já tem 17 anos. Mas a forma como revela as fragilidades que não conseguiu debelar até à data dão um bom perfil da adolescência, para muitos. Entre a incapacidade de se integrar e a descoberta da amizade com uma rapariga, o jovem carpe as suas mágoas para um gravador.

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

Andar por aí II

O humor inteligente cultiva-se. Sei de quem, bem pequenote, se delicia com as aventuras deste histriónico Sr. Hulot. Outra proposta para cultivar o bom espírito de andar por aí...



«Quando o conheci (Março de 1968), deu-me este conselho: "Quando estiveres aborrecido, senta-te num café com vidros grossos que impeçam que até ti chegue o som da rua. E olha para as pessoas que passam. Quando retirares um elemento da vida - o som, neste caso - vês que tudo é uma dança sem fim, insólita, completamente conjugada." Retirar um elemento. Ou acrescentar outro, deslocar. (...) Escolher de "onde se vê o mundo".»

«Jacques Tati: o meu tio» in Jorge Silva Melo, Século Passado, Cotovia

Terça-feira, Agosto 11, 2009

Novo Concurso de Literatura Infanto-Juvenil

O Centro Cultural do Alto Minho lança, no âmbito das comemorações dos seus 30 anos de existência, a 1ª edição do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil. A principal condição para participar é ter no máximo um livro publicado. Não há limitações de idades, e o concurso é aberto a pessoas de todos os países de língua portuguesa. O regulamento do concurso pode ser lido na página do CCAM.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Pós-Graduação em Promoção e Mediação da Leitura

Estão abertas as inscrições até 11 de Setembro para a mais recente pós-graduação em Promoção e Mediação da Leitura. Será na Universidade do Algarve e a DGLB associa-se ao curso através de um protocolo.
É relevante que as Universidades Públicas comecem a dar atenção a esta área, que é tão pouco explorada nos cursos de ciências documentais. A mediação é cada vez mais transversal e universal, dirigindo-se a todos os públicos, tendo em conta diversos contextos sociais e profissionais, pelo que a sua valorização se torna cada vez mais urgente. Quanto à organização disciplinar dos cursos, esta deverá responder a uma ideia concreta da mediação e da promoção que se deseja problematizadora e conhecedora. Um mediador é um pouco como um bom livreiro: deve conhecer e gostar de livros, assim como de pessoas. Como é impossível dominar todas as áreas de conhecimento é essencial dotar o mediador de curiosidade para que por si descubra em que áreas e com que público se sente mais preparado e interessado. Se instrumentalizarmos a formação da mediação impedimos os agentes promotores de leitura de se actualizarem e de exigirem mais de si próprios, acreditando que as suas ferramentas são adequadas e suficientes. Por isso, todos os cursos que apareçam são uma excelente oportunidade para alterar alguns organigramas muito centrados na aplicabilidade, que se esquecem que a aprendizagem depende sempre do prazer de saber.

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Novos Protocolos entre autarquias e o PNL

Murça, Caldas da Rainha e Alpiarça contarão, a partir do próximo ano lectivo, com o apoio do Plano Nacional de Leitura para a aquisição de livros, devido à assinatura de um protocolo, como tem vindo a acontecer em diversos municípios do país. Os livros serão disponibilizados nas várias bibliotecas escolares, com vista ao estreitamento da relação das crianças com o livro e a leitura, diversificando e facilitando-lhes o acesso.


Foi no final de Julho que a Orfeu Negro lançou mais um livro na colecção Orfeu Mini, a tal que edita «livros para crianças que não fazem mal aos adultos» e/ou «livros para adultos que não fazem mal às crianças».

Chama-se Burros, e só pela capa apetece. Não apetece vorazmente, mas delicada e deliciosamente. Cheira a amor doce e outonal. Ao que parece, pela sinopse, o amor nem sempre assim é, mesmo em bodas de prata e daqui se parte para um motivo e o seu desenrolar narrativo. A expressividade da imagem é um convite.

As autoras, Adelheid Dahimène (texto) e Heide Stöllinger (ilustração), são austríacas e premiadas, tal como o livro. Desta vez os animais não representam crianças nem paradigmas universais. Dão voz aos desentendimentos dos casais, às suas insatisfações, aspirações e erros, porque disso é feita a vida. Ser nas bodas de prata reforça ainda mais essa ideia.

É mais um contributo da Orfeu Negro para alargar os paradigmas temáticos da literatura de recepção infantil, prezando sempre a qualidade da obra enquanto corpo estético e literário.

Terça-feira, Agosto 04, 2009

«andar por aí»

No auge de Verão, nada melhor do que «Andar por aí». É um dos últimos álbuns da Planeta Tangerina, com texto de Isabel Minhós e ilustrações de Madalena Matoso. Recorda ao leitor adulto todos os prazeres que se pode ter quando se passeia pelas ruas do bairro, sem pressa. Quem no-lo diz é uma criança, que sai costumeiramente acompanhando um avô aparentemente distraído e ausente, sinónimo de liberdade e autonomia. Assim, o pequeno aproveita para interagir com o chão da rua, as paredes e muros, os postes, os animais, as minhocas. O vento, o sol e a chuva também são bem vindos, e para cada situação nasce uma brincadeira.

Quando os pais se preocupam com a ocupação dos tempos livres das suas crianças, este livro recupera uma ideia cada vez mais arredada dos hábitos familiares: o de integrar a criança no seu espaço social e comunitário, dando-lhe confiança para reconhecer as fronteiras da sua liberdade e arriscar o desenvolvimento da sua imaginação.

A criatividade do menino é muito bem explorada no álbum, em que texto e imagem estão em sintonia, reforçando a ideia do passeio: o avô circula sempre à frente do neto e a geometria das formas (árvores, bancos, edifícios, automóveis...) confere aos percursos uma simbologia lúdica. Equilibrismo, jogo de sombras, saltos, um pau que se transforma em remo e deixa a marca do trilho seguido como numa história... todos os recursos são válidos para exercitar os sentidos. O tom rosado da criança sublinha a sua alegria e condição saudável, principalmente em comparação com os vizinhos que só a custo consegue convencer a descerem de suas casas e partilharem a experiência. A mãe, que nunca aparece na imagem, está presente no texto como referência ao espaço familiar, é aquela que os espera, que os aconselha, que mantém a postura cautelosa mas condescendente. O passeio continua, ora com os dois caminhantes em grande plano, em linha recta, ora num labirinto de pessoas e locais, sem esquecer o tigre esfomeado que engole casas, escadas e sinais de trânsito. A vida repete-se nos correios, no mercado, no banco de jardim, mas a atenção multiplica cada momento de novas sensações e acontecimentos, de acordo com a vontade.

No final, um topos do regresso: o cabide com os casacos, as botas, os chapéus e as malas. Num bolso uma planta - o exterior que se apropria e se traz para a intimidade.

As últimas palavras são paradigmáticas:

«Porque andar por aí é bom
e dizem que só faz bem.

(Até já ouvi o meu avô dizer isso à minha mãe).