Terça-feira, Junho 30, 2009

A leitura é uma actividade supradisciplinar

Foi concebido por uma turma do 5º ano da EB 2/3 de Beiriz, no âmbito da disciplina de EVT.
No YouTube há diversos vídeos sobre leitura realizados por grupos desta escola. Mais uma vez se reitera que a leitura é uma actividade transversal e a sua promoção poderia e deveria ser feita por todos os professores e não apenas os de língua portuguesa. Essa motivação ajudaria a desvincular o livro e a leitura recreativa do treino da leitura.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Bibliotecas e Bibliotecas Escolares em rede

Decorre hoje o Fórum Rede de Bibliotecas Escolares, onde se discutem as valências e os progressos das Bibliotecas Escolares. Com uma duração de 13 anos, a Rede apresenta resultados muito positivos, tendo equipado a totalidade das EB 2/3 com bibliotecas. Onde ainda haverá mais trabalho a fazer é no 1º ciclo, onde se calcula que apenas 40% das escolas usufruam deste equipamento. Os dados resultam do estudo Avaliação do Programa da Rede Bibliotecas Escolares liderado pelo Prof. Dr. Firmino da Costa, do ISCTE. A notícia pode ser lida com mais detalhe no Jornal Público e no Jornal de Notícias.
Outra notícia avançada pelo site da RBE no dia 22 de Junho dá conta da oficialização da condição de professor bibliotecário que, segundo o mesmo site, passará a dedicar-se em exclusivo à Biblioteca Escolar.
A importância de equipamentos modernos e em diferentes suportes assim como a formação de professores na área das Bibliotecas são dois factores essenciais ao funcionamento quotidiano de um espaço que se deseja catalisador de informação, literacia, curiosidade e sociabilização. Hoje em dia os catálogos contam com edições actuais, e integram alguns livros de sucesso garantido (como a colecção Harry Potter, Philip Pulman ou Stephenie Meyer). O Plano Nacional de Leitura permitiu igualmente dar um novo fôlego à aquisição de obras. Falta agora disponibilizar aos professores e auxiliares as devidas formações, dentro do seu horário de trabalho e sem custos. Falta igualmente motivar alguns agrupamentos escolares e Bibliotecas Municipais para que alarguem as suas relações para além da catalogação das obras e instalação de equipamentos e programas informáticos.
A ideia de rede não funciona da mesma forma em todos os concelhos. Na página da RBE são vários os exemplos de autarquias que assinaram protocolos e apresentaram os seus portais e catálogos colectivos.
Contudo, ainda há casos de incompatibilidade e até competição entre Bibliotecas Municipais e Bibliotecas Escolares. Acontece eventualmente que dentro da Biblioteca Municipal o responsável pela rede de Bibliotecas Escolares trabalhe de costas voltadas para a equipa que gere os espaços da Biblioteca Municipal. Acontece também que se associe a diminuição de empréstimos na Biblioteca Municipal por crianças e adolescentes à implantação das Bibliotecas Escolares. Inversamente, há Bibliotecas Escolares que se vêem como prolongamento pedagógico e dificilmente aderem a actividades mais lúdicas ou transversais. Apesar de o panorama ser encorajador, há que limar arestas que são iminentemente políticas: as estatísticas das Bibliotecas Municipais são muitas vezes o único objecto de análise por parte de vereações e chefias de departamento, com vista a avaliarem a competência dos serviços.
Uma das prioridades anunciadas pela direcção da RBE é o desenvolvimento da REDE, que permitirá o empréstimo entre bibliotecas e a partilha de fundos. A optimização de recursos é óbvia, assim como a aproximação ao público. Seria igualmente excepcional se o mesmo se verificasse a nível interconcelhio e assim se pudessem realizar comunidades de leitores que aguardam por verbas inextistentes para a aquisição de, por exemplo 10 exemplares de 6 livros para que dez pessoas se possam reunir durante seis meses conversando sobre leitura.

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Reflectindo sobre literacia

Entre 19 e 22 de Julho o Campus de Gualtar, na Universidade do Minho, recebe simultaneamente a 16ª Conferência Europeia de Leitura e o 1º Forum Ibero-Americano de Literacias. O programa é vasto, contando com apresentações em diversos formatos: posters, mesas-redondas, comunicações individuais, simpósios. A partir do tema da literacia, serão partilhadas experiências e projectos desenvolvidos com adolescentes e adultos, em espaço escolar, laboral, universitário, que se debruçam sobre temáticas como a multiculturalidade, o multilinguismo ou a democracia.
Cabe a cada um escolher as salas que mais lhe interessam, de acordo com as suas curiosidades e necessidades. Haverá oradores portugueses, castelhanos, brasileiros, e de diversos países europeus. A Estónia e a Finlândia estão representadas em estudos que serão apresentados.
O site está devidamente organizado permitindo que se trace um roteiro com antecedência. Podendo interessar a bibliotecários, animadores, formadores, será especialmente relevante para docentes de todos os níveis de ensino, do pré-escolar à academia. Discutir a literacia poderá levar-nos a uma compreensão mais adequada dos mecanismos de apreensão leitora e de produção escrita. Sem eles, não haverá educação.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

arrumar a casa

O mais recente álbum de João Pedro Mésseder e Luís Henriques surpreende. Quando se questiona cada vez mais as fronteiras das temáticas ditas infantis, assim como as devidas abordagens, eis que surge mais um forte argumento para contrariar catalogações oprimentes.

Não venham Já ou Uma casa virada do avesso(Caminho) é um texto poético, de pendor humorístico, reforçado por sentidos figurados e um refrão que marca o ritmo: «Não venham já,/ não venham já,/ que isto está tudo/ ao Deus dará:». A aflição do sujeito justifica a velocidade do compasso: uns amigos telefonam avisando que chegarão em breve para visitar a sua casa, e esta não está em condições de ser vista. Então, ao início da conversa seguem-se os argumentos da personagem para demonstrar o estado caótico da casa.
Mésseder, como sempre, não cede a facilitismos rimáticos e introduz associações inesperadas. Aproveita igualmente a semântica própria da habitação para estabelecer associações metonímicas «sujo, o espelho/ não vê os olhs/ e o candeeiro/ nem ideias dá.» O exagero agudiza a situação, mas nunca o texto seria tão estimulante sem as ilustrações de Luís Henriques.
Logo na capa deparamos com um homem envolto no fio do telefone, em trajes pouco comuns, que depois percebemos serem um pijama e um roupão. Estará deitado, descalço, com um alguidar atrás de si. A boca destaca-se na sua cara, reforçando a ideia de comunicação. Nada nesta imagem transmite harmonia ou tranquilidade.
Assim que começamos a leitura, deparamo-nos com formas exageradas que realçam a expressividade das situações. Os contornos dos objectos e das roupas definem curvas de movimento, corroborado pelos tracejados que dão volumentria ao espaço. Os detalhes figurativos, como as gavetas entreabertas das quais saem papeis e o braço de uma viola com uma corda solta, ajudam a criar uma sensação de catástrofe iminente. Tudo ondula, do tapete ao candeeiro, ainda na divisão inicial. Quando a personagem começa a percorrer a casa os tons laranjas dão lugar a uma paleta mais diversificada que serve para identificar objectos ou sensações, de acordo com o texto. Tudo ganha vida, culminando com a fuga da sanita e do tacho. A animização consegue-se através do exagero das formas curvas, mais uma vez. Persistindo no detalhe, neste álbum o ilustrador aproxima o leitor de cada momento numa espécie de zoom, contribuindo assim com a dimensão exagerada dos objectos para criar uma volumetria asfixiante. A imagem apenas foca a situação descrita na estrofe da página, sem qualquer informação adicional de contexto espacial. Na última página dupla desvenda-se o sentido da capa, com a reprodução da ilustração, agora ampliada e sem moldura: «Não venham já,/ nem devagar,/ que tropecei/ num alguidar,/ caí de borco/ no patamar;/ não venham hoje/ que hoje não dá.» Na guarda que antecede a contracapa o telefone, fio condutor do discurso visual, descansa finalmente. É ele que, no meio de cada caótica descrição, remete o leitor para o motivo do texto: a tentativa do homem impedir que visitem a sua casa.
É certo que qualquer adulto, tendo em conta as experiências decorrentes da idade, já passou por situações semelhantes. É por isso inevitável que sinta alguma identificação com o tema e sorria, cumprindo assim a sua função de leitor. Mas acontecerá o mesmo com uma criança? Não poderá ser este um álbum feito a pensar nos adultos, apesar de se destinar aos mais pequenos?
Estas observações são frequentes em relação a outros livros. Para tirar todas as dúvidas, fica um primeiro esclarecimento: o texto teve origem num projecto escolar de escrita colaborativa, constando alguns vestígios do mesmo na 7ª e 8ª estrofes do poema, segundo nota introdutória de João Pedro Mésseder. O segundo esclarecimento é de carácter meramente literário: um livro bom não tem idades definidas, tem sim um leitor modelo que será aquele que dele se aproprie. É demasiadamente presunçoso da parte dos adultos afiançarem que há determinados temas de que as crianças não gostam ou não percebem. Este livro é mais um contributo para a mudança de mentalidades no que respeita ao álbum de recepção infantil.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Novos caminhos da ilustração - Debate em Vila Nova de Gaia

No próximo dia 3 de Julho, pelas 18.30 Horas, a Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia acolhe um debate sobre os novos caminhos da ilustração. A moderação estará a cargo de Emílio Remelhe, que conversará com Gémeo Luis, Cristina Valadas, Luís Silva, Marc Taeger e José Manuel Saraiva.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

O futuro das bibliotecas itinerantes em debate, II

Depois de termos noticiado aqui o encontro que teve lugar na Batalha, sugerimos que sigam até ao Papalagui, onde o Nuno Marçal nos deixa uma imagem do que foram e do que são hoje alguns destes espaços móveis que levam os livros aos locais onde eles muitas vezes são mais necessários.
Visitem, recordem ou descubram-nos.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Inaugura a Biblioteca Municipal Piteira Santos, na Amadora

A inauguração será hoje, pelas 17h30. A nova Biblioteca do Município da Amadora conta com quatro pisos de acesso ao público, contrastando com as duas exíguas salas onde funcionava a antiga Biblioteca.
No programa da inauguração serão os leitores, especialmente as crianças, os primeiros a entrar. Consigo levarão livros da antiga Biblioteca, numa acção simbólica. A Escola Intercultural marca presença com o Grupo de Djambé e a Orquestra Geração encerra a inauguração com um concerto. É uma forma eficaz de apresentar o espaço ao público a quem se destina, trabalhando a partir do início com as escolas. É para a comunidade que o trabalho deve ser feito em primeiro lugar. Sem a sua participação, o sucesso das Bibliotecas fica inevitavelmente comprometido. Boa vida e boas leituras para a nova Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos!

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Tratar um adolescente como adulto

Continuando hoje a preparar a acção de promoção da leitura para adolescentes, clarifiquei na minha cabeça algumas supostas verdades que decorrem das experiências que tenho vindo a ter.
De quem está mais perto o adolescente, da criança ou do adulto?
Do adulto, digo, porque é autónomo nas suas escolhas, tem um comportamente independente e livre enquanto utilizador do espaço, e não precisa de mediação, excepto quando disso sente necessidade, requerendo-a. Até os pré-adolescentes têm este comportamento, mesmo que seja mais hesitante.
Como promovemos então a leitura junto do público adulto?
Temos para com este público uma seriedade e um respeito que muitas vezes não temos com os adolescentes, que tratamos de forma paternalista, tentando manter sobre eles um poder que já não detemos. Na Biblioteca Municipal, o adolescente aspira à liberdade e individualidade, mesmo quando está em grupo.
Um dos principais obstáculos à promoção da leitura com adolescentes começa na forma como estes são recebidos no espaço, e na imediata desconfiança que sentem em relação a quem os recebe.
As suas escolhas não podem ser questionadas, mas o seu comportamento deve obedecer a regras. O respeito e a responsabilização são o primeiro passo para a confiança, e só assim o adolescente poderá pedir conselhos e até aderir a iniciativas da Biblioteca. Porque confia no seu mediador. Tudo isto parece por demais evidente. Mas não é. Os adolescentes não podem sentir-se espécies raras, a quem os adultos rotulam de diversas coisas, mantendo sempre a ideia da transitoriedade. Porque, quando a adolescência passa, com ela não leva traumas, humilhações ou sucessos. Esses ficam na matriz da personalidade dos indivíduos. Se queremos que os adolescentes leiam, devemos primeiro conhecê-los, saber do que gostam, do que têm medo, que expectativas têm. E temos de aceitar que não o queiram partilhar connosco, que não gostem de nós. Tal como os Direitos do Leitor, de Pennac, também poderia haver uma cartilha para os direitos dos adolescentes, entre os quais figurariam como essenciais o direito a ser respeitado e o direito a conhecer as regras. Não temos de fingir ser adolescentes para comunicar com adolescentes, mas temos de gostar deles.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Porque não gostam os adolescentes de ler?

Estando a preparar uma acção de formação sobre a promoção da leitura para adolescentes, enumerei alguns tópicos sobre os comportamentos leitores e não leitores deste público.

Porque não gosta o adolescente de ler?
Porque nunca gostou;
Porque deixou de ter prazer com os livros que lia e ainda não encontrou outros que os substituam;
Porque não consegue destinar tempo à leitura entre tantas outras coisas de que gosta mais;
Porque os outros não gostam;
Porque não encontra nenhuma utilidade na leitura;

Leitor vivo: aquele que nunca deixou de ler e assume que lê, tem critérios e sabe o que quer.
Leitor adormecido: aquele que gosta de ler mas não quer gostar, não quer assumir, ou simplesmente já se esqueceu de que gosta porque não consegue encontrar um livro perfeito.
Falso leitor: aquele que não tem hábitos de leitura mas está ocasionalmente interessado num livro; aquele que tem curiosidade pelos livros mas não consegue lê-los até ao fim, embora insista em tentar.
Não leitor: aquele que não tem competências para ler os livros que considera adequados para si, aquele que nunca encontrou nada de útil na leitura.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Experiências com Um Livro à medida

No passado dia 4 de Junho regressei à EB 2/3 Comandante Conceição e Silva, no âmbito da semana da leitura. A turma era do 6º ano. Resolvi testar novas actividades para o atelier Um livro à medida, que não me convencera noutras tentativas prévias.
A ideia, como acontece na maioria dos nossos ateliers, é provocar o encontro entre os adolescentes e os livros, levá-los a procurar, a mexer, a discutir uns com os outros. Em suma, tentamos contribuir para a sociabilização do livro, numa fase em que este está geralmente associado a preconceitos que o afastam dos interesses de rapazes e raparigas.
Assim, comecei por um pequeno exercício de escrita criativa, em género de retrato chinês, para descontrair a audiência e os levar a produzirem juízos de valor sobre si mesmos. Em seguida, dividi a turma em grupos. A cada grupo de três alunos foi entregue um cartão com o perfil de um adolescente. As características de cada perfil tinham elementos familiares ao público e outros um pouco surpreendentes, para os confundir e obrigar a conversar.
Depois de entregues os cartões, foi lançado o desafio: cada grupo teria de escolher um livro que achasse ser do agrado de uma pessoa com aquelas características. A turma aderiu muito bem e a tarefa foi divertida. Três grupos escolheram livros de Uma Aventura (um porque remetia para o futebol, outro para o Teatro, características referidas nos cartões). Um dos grupos escolheu um livro informativo com muitas ilustrações. Num dos casos, os alunos identificaram uma colega com o perfil e pediram-lhe para escolher um livro de que gostasse.
No final, depois de todos apresentarem o seu perfil e o livro correspondente, com a justificação devida, li-lhes o álbum da Kalandraka, Orelhas de Borboleta que valoriza a diferença e responde à discriminação com perspectivas originais. Inicialmente estavam todos um pouco cépticos (afinal era um livro infantil!) mas foram ficando mais curiosos por saber quais seriam as respostas da menina às provocações dos colegas.
Ainda é cedo para ficar convencida, mas há já alguns aspectos a limar que poderão ajudar ao sucesso do atelier. Um deles será contextualizar em diálogo o desafio dos cartões: que tipos de livros existem, que tipo de pessoa pode gostar de um atlas?, e de um livro de poesia?, e de BD?; que assuntos são mais interessantes para rapazes?, e para raparigas?... Assim talvez a busca fosse mais eficiente e diversificada. Outra possibilidade é aumentar o número de livros para dois, para que todo o trabalho seja a dobrar.
Um dos aspectos mais positivos é o do diálogo entre pares no momento das escolhas. Havia cartões repetidos para aumentar o leque de possibilidades para o mesmo perfil. Aconteceu por isso que um dos grupos perdeu o seu livro para o outro, que chegou primeiro, sendo obrigado a pensar noutra hipótese.
Uma das minhas dúvidas reside na escolha dos livros. Se procurarem livremente na Biblioteca, ficam a conhecê-la melhor, mas podem ser mais preguiçosos e escolher a primeira coisa que lhes venha à cabeça. Se ficarem sentados e for eu distribuir os livros, como faço nos outros ateliers, obrigo-os a verem melhor cada um, podendo destacar livros para os quais não olham habitualmente.
Quando voltar à Comandante Conceição e Silva, vou voltar a tentar...

Sábado, Junho 13, 2009

O futuro das Bibliotecas Itinerantes em debate

A notícia já chega em cima da hora, mas dela aqui deixamos conta. Até ao próximo domingo, dia 14, decorre na Batalha um encontro que pretende discutir o futuro das Bibliotecas Itinerantes, quais as estratégias de captação de públicos e programas ou acções a adoptar. Como oradores, estarão presentes Ian Stringer, membro da IFLA e especialista sobre Bibliotecas Itinerantes e Roberto Soto Aranz, Presidente da ACLEBIM - Asociación de Profesionales de Bibliotecas Móviles (Espanha), para além de Nuno Marçal, responsável pelas andanças do Bibliomóvel por terras de Proença-a-Nova.
O programa completo pode ser consultado aqui.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Ir de viagem

Vem a propósito. Quem se aventura a escolher uma estrada nacional em detrimento da auto-estrada? Haverá uma intenção? Se tivessem de apostar entre um casal de avós com o seu neto e uma mãe com os dois filhos, quais dos grupos optaria por cada uma das hipóteses?

Onde nos leva a A1? E a N126? Existem ambas? Cruzam-se? É possível que tenham troços similares entre localidades? Começam ou terminam no mesmo ponto viário?
Imaginem agora duas viagens sobrepostas, embora em sentidos diferentes, que podemos acompanhar, escolhendo uma ou outra.
Desvende-se o mistério:

É um dos mais recentes álbuns do Planeta Tangerina. Não tem contracapa e sim duas capas, invertidas. O azul e o vermelho orientam cada uma das narrativas assegurando assim a legibilidade de cada viagem. O movimento e o diálogo tecem-se pelo uso da cor e pelo recurso ao contorno sobre o fundo branco da folha, ou da cor alternativa da outra narrativa. A cor ajuda a distinguir o percurso rectilíneo da auto-estrada das curvas da estrada nacional, assim como estabelece relações de aproximação ou afastamento aos carros e às personagens. O efeito desta sobreposição cria expectativas ao mesmo tempo que obriga o leitor a aceitar a impossibilidade de ler cada página na sua totalidade. Este jogo entre o que é possível e o que se deseja ler confere à própria leitura uma nova dimensão, nomeadamente de coordenação motora. Parece óbvio, mas com este álbum recuperamos a consciência da mecânica da leitura.
A narrativa é simples, tomando o ponto de vista das crianças, que assumem o papel de narrador e relatam cada passo da sua viagem. A nossa experiência remete-nos imediatamente para situações vividas repetidamente e outras que eventualmente aconteceram ocasionalmente ou nunca vivenciámos. Para além das inevitáveis paragens em bombas de gasolina ou estações de serviço, estes narradores atentos destacam no seu testemunho alguns comentários dos adultos ("esta gente é louca" ou "Há muito tempo, a esta hora, isto era aqui uma multidão..."), ou até sensações ou pensamentos próprios ("Olhamos para lá da janela e não nos sentimos nada bem-vindos. Uma muralha de metal colorida impede-nos de ver o lado de lá. Quem mora aqui não gosta de nos ver. Quem mora aqui não gosta de nos ouvir.") As duas viagens não são por isso meros paradigmas do que pode representar esta experiência para uma criança. Pelo contrário, a dialéctica que se estabelece no álbum está repleta de segundos sentidos, como se verifica através da oposição entre o ar condicionado do carro dos avós e as janelas abertas do carro da mãe. Ou, noutra perspectiva: a oposição entre a impossibilidade de abrir as janelas na auto-estrada e o prazer de as ter abertas numa estrada nacional, onde a velocidade inferior o permite (mas que é mera conjectura, nada o afirma no texto). A argumentação não funciona da mesma forma para os dois modelos, e o argumento da rapidez e do tempo de lazer à chegada não compensa o piquenique, a pausa para o café e os matraquilhos, a disponibilidade daqueles com quem a família se cruza e a quem pede informações, até o tão politicamente incorrecto cigarro que a mãe fuma. Há ainda a paisagem, que a certo momento parece ser a mesma que a criança que viaja na auto-estrada alcança, tecendo a seguinte consideração: "Passamos por cima de uma estrada antiga, que parece abandonada, e falamos das viagens de antigamente." O jogo visual leva-nos a imaginar que é a estrada por onde passa a outra família, mas não o sabemos. Nem sabemos sequer se há simultaneidade nestas viagens, porque haverá? O efeito da partilha do espaço e do mesmo registo discursivo (textual e visual) cria ambiguidades que alimentam a retórica do álbum, provocando no leitor uma sensação de originalidade conseguida.
Boa viagem!

Terça-feira, Junho 09, 2009

Motivar os CEF para a poesia e não só...

Preâmbulo:
Os CEF (Cursos de Educação e Formação) são cursos que estão a meio caminho entre os cursos profissionais e o ensino recorrente. Destinam-se maioritariamente a alunos sem aproveitamento no ensino regular e dão equivalência ao nono ano. Os cursos CEF são variados, podendo existir CEFs de Jardinagem, Comércio, Informática, Empregados de Mesa, Cozinha... Todos eles contam com disciplinas específicas mas não dispensam a Língua Portuguesa, uma língua estrangeira ou a matemática.
Introdução e contextualização do problema:
Ora, acontece que muitos dos alunos que frequentam estes cursos sofrem de total ausência de interesses. Não são todos, mas na sua maioria estes alunos não gostam de estudar, não têm auto-confiança no que respeita as suas capacidades cognitivas e está consciente de que estes cursos existem para lhes dar o 9º ano (o verbo dar deve ser entendido literalmente). Acresce a este panorama um número de alunos com problemas de comportamento.
A situação:
Na primeira sessão da acção de formação para professores que estou a orientar em Benavente, uma das professoras pediu ajuda ao grupo no sentido de encontrar uma estratégia para motivar os seus alunos do CEF para a poesia que, ao que parece, consta no seu programa.
Sugeri que visionassem o filmes Mentes Perigosas. Já tinham visto, esse e outros, como O Clube dos Poetas Mortos, sem manifestarem qualquer interesse. Em seguida pensei em música: porque não levarem para a aula a letra da música que mais gostam para analisarem e partilharem? Não seria possível porque os alunos não sabem sequer o que ouvem, ouvem apenas porque os outros o fazem. À medida que íamos dialogando, esgotaram-se todas as minhas hipóteses.
A minha eventualmente polémica conclusão:
Não é a primeira vez que constato que há crianças e adolescentes absolutamente indiferentes a tudo. É evidente que haverá, no fundo de cada um, alguns interesses específicos. O problema é que, em geral, esse conhecimento é-nos vedado. Por vezes, ainda o alcançamos mas nem sempre é possível dispendermos o tempo e suportarmos o seu comportamento. Questionei-me acerca da adequação do tópico de poesia a um programa para um curso CEF. Numa primeira análise parece despropositado. Não sei, no entanto, quais são os objectivos a trabalhar. No entanto, certo é que actualmente tentamos sempre apelar à motivação e nunca à imposição. Porque razão tem aquela professora que sofrer para encontrar uma solução altamente improvável para conseguir que os alunos apenas reajam a um estímulo? Até onde pode chegar o esforço para motivar alunos indiferentes? Apesar de defender que, no que respeita a leitura, há sempre um 'texto para uma panela', que é como quem diz, há sempre um livro para um leitor, não estou certa de que deva ser o mediador a encenar o próprio texto para que o receptor nele repare, nem que seja por um brevíssimo momento. Embora os professores estejam hoje destituídos de autoridade, deverão renegar essa função histriónica que se cola ao que conhecemos como motivação. A motivação implica um pacto de sinceridade e prazer, mesmo quando se trata de um acto cénico (quando o é, ambas as partes o sabem). A motivação não pode ser um sacrifício para o mediador. Para além disso, a relação ensino-aprendizagem não se constrói apenas no estimular da curiosidade, mas igualmente no esforço e desagrado de quem aprende.
A leitura recreativa deve ser estimulada pela motivação, porque se deseja que seja livre e prazeiroza. Já o treino de leitura não tem de passar por aí mas sim pelo desenvolvimento de competências, quer os alunos estejam motivados, quer não.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Balanço da Comunidade de Torres Vedras

Na última sessão estavam todos muito agitados: tinham tido o último teste! Estavam já a combinar os passeios de férias, que incluiam idas ao cinema e outros encontros. Quanto às despedidas, fizeram-se a condizer. Elegeram o melhor título, a melhor capa e o melhor livro. (Cada um podia votar em mais do que um livro).

Melhor título:

Nem tudo começa com um beijo - 9 votos;
Escrito na parede - 5 votos;
A Biblioteca Mágica - 2 votos;
O rapaz que chutava porcos - 1 voto.

Melhor capa:
Nem tudo começa com um beijo - 11 votos;
Escrito na parede - 2 votos;
O rapaz que chutava porcos - 2 votos.

Melhor livro:

A Biblioteca Mágica - 8 votos;
O rapaz que chutava porcos - 4 votos;
Nem tudo começa com um beijo - 3 votos.
De entre tudo o que partilhámos, escolheram o tom descontraído da conversa como o elemento mais positivo. Quanto a actividades, destacaram a palavra proibida pelo carácter de desafio. À pergunta o que seria preciso para participarem numa comunidade como esta em horário pós-lectivo, a maioria afirmou que não participaria. A Andreia afirmou que participaria se os amigos também aderissem, ao que o Luís respondeu que um dos aspectos interessantes seria poder conhecer outras pessoas. Relativamente a sugestões, ninguém pareceu incomodado com a duração das sessões: todos pensavam que duravam 1h30, quando afinal estávamos reunidos durante 2 horas. Sugeriram mais liberdade na escolha dos livros, discordando quanto a escolhas individuais ou colectivas.

Esta terá sido a comunidade de jovens leitores com mais sucesso. Todos leram pelos menos um livro até ao fim, a maioria leu todos os livros, ainda que de forma incompleta, e houve quem conseguisse ler os quatro na totalidade. Para além disso, alimentaram o blogue com alguma regularidade, e estabeleceram diálogos a partir de opiniões divergentes e dúvidas de interpretação. No entanto parece certo que os adolescentes não têm este tipo de iniciativas no topo das suas prioridades. Provavelmente porque nos falta ainda uma tradição de comunidades com jovens. Ou este modelo não teria sucesso em Espanha ou nos EUA. A tarefa é árdua e lenta. Mas não será impossível.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

5 de Junho, 18.30 Horas - Biblioteca Municipal de Estarreja

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