Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Encontros e despedidas



Encontros e despedidas, Maria Rita, in Maria Rita

Há coisas de que nunca falamos. Preocupamo-nos com as actividades de promoção, com os livros, com a receptividade dos públicos. Mas neste trânsito permanente conhecemos pessoas: bibliotecárias, professoras, mães, adolescentes e crianças. E a partilha vai muito além da leitura, chega à vida de todos os dias, às experiências, aos desabafos. Criamos laços de proximidade e distância, cumplicidades especiais, afectos. Podemos confessar a intimidade do nosso pensamento, porque estamos perto e longe ao mesmo tempo, não há lugar a cobranças nem quezílias. Todos somos livres para escolher as pessoas com quem empatizamos. Se promovemos leitura, é a promoção que nos dá o privilégio de conhecer a vida e as pessoas, de adensar emoções e afectos. Neste diálogo acontece a igualdade, a dedicação, a aprendizagem. Sem vida não há leitura, nem literatura, nem fruição. E nunca falámos disso.

Como se convencem adolescentes a participar numa Comunidade de Leitores? - III

Começou hoje a comunidade de jovens leitores na Biblioteca Municipal do Sobral de Monte Agraço. Apareceram sete participantes, entre os 11 e os 13 anos. Todos, excepto um, são frequentadores e leitores da biblioteca, tendo recebido em casa a informação. Dos sete, quatro receberam a nossa visita na sala de aula. A motivação principal dos mais velhos é o seu gosto pela leitura. Os dois mais jovens gostam de ler, e gostam muito da biblioteca. Isto significa, a meu ver, que uma comunidade de jovens leitores só se realiza com leitores, só esses aparecem, só esses se interessam. Eventualmente, podem levar consigo um amigo que não goste tanto de ler, mas essa participação será residual. Outro aspecto essencial é a relação que têm com a biblioteca e a equipa que os recebe e acompanha. Se a biblioteca não lhes for querida, não irão.
Em suma, o segredo para ter público numa conunidade de jovens leitores reside mais na relação previamente construída entre os adolescentes (muitas vezes ainda crianças, quando começam a frequentar a biblioteca), o espaço físico e as relações humanas que se estabelecem.
Quem ganhou aquele grupo não foi a divulgação na escola (embora continue a acreditar que não é contraproducente). Foi o contacto diário, o conhecimento que a Alexandra tem de cada um, e o facto de todos se sentirem em casa.
Se estarão os mesmos sete, no dia 11, só então saberemos. A partir de agora, a responsabilidade é minha, da minha capacidade de os entusiasmar, do seu interesse pelos livros escolhidos, da possibilidade de desenvolvermos projectos em conjunto. Sabemos que há entusiasmos que parecem inabaláveis e de repente se esfumam, como sabemos que há outros mais discretos que persistem. Mas já se prefigura uma resposta à questão inicial...

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Como se convencem adolescentes a participar numa Comunidade de Leitores?-II

Hoje tive a triste notícia de que a nossa ida à EB 2/3 no Sobral de Monte Agraço, para convidar os alunos das turmas do 3º ciclo a participarem na comunidade não tinha surtido efeito. Contamos com mais uma inscrição apenas, e todos os que se inscreveram fizeram-no devido à informação recebida em casa. De acrescentar que são mais novos, têm onze anos, quase doze. Regressámos à escola, para concluir as visitas. Há sempre uns semblantes mais entusiasmados, mas ainda não se materializaram. A primeira sessão é já na 4ª feira, vamos ver se entretanto alguém mais se junta aos mais novos.
O que complica a situação é que neste momento esgotaram-se as estratégias. Se a ida à escola tivesse sucesso, poderia repetir o processo noutras ocasiões e locais, com algumas garantias. Questiono-me se devemos continuar a apostar nestes projectos, desbravando terreno, insistindo até que se consolidem. No íntimo, acho que sim, que devemos continuar, mais não seja para que os adolescentes saibam que existe uma iniciativa chamada comunidade de leitores, que há quem a possa frequentar. Disse às várias turmas que quem gostasse de conversar e de ler, gostaria da comunidade. Não acredito que não haja adolescentes que não gostassem desta partilha. Consigo enumerar as razões para não quererem participar, mas não sei como alterá-las, nem percebo porque não há uma minoria que pense de outra forma.

Dora Batalim em Odivelas


A literacia visual é absolutamente necessária a todos os que lêem álbuns e muitas vezes as recensões de livros infantis pecam pela ausência de interpretação do texto visual. No próximo dia 12 de Fevereiro, na Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, os interessados terão oportunidade de alargar horizontes e partilhar leituras com a formação de Dora Batalim, Ler a Dobrar. Quem já a ouviu falar de álbuns, sabe quão contagiante pode ser o seu entusiasmo e quão surpreendentes os livros que desvenda.

Sábado, Janeiro 24, 2009

Ainda há esperança

Um dos participantes na Comunidade de Jovens Leitores em Montemor-o-Novo confidenciou-nos que os pais não lhe compram livros porque acham que ler é uma perda de tempo. Apesar de ter alguns livros em casa, a leitura não é incentivada.
No ano passado, com 14 anos, descobriu e devorou, na Comunidade, todos os volumes do Diário Secreto de Adrian Mole (Sue Townsend, Difel). Ainda leu o Diário de um Louco (Ted Nancy, Gradiva) e nas férias, sedento de livros, e depois de ter relido, à falta de melhor, as aventuras do Bando dos Quatro, requisitou na Biblioteca Municipal o Artemis Fawls, de que gostou muito. Chegou até a tentar comprar os volumes seguintes na livraria, mas estavam esgotados. Este ano, para além do juvenil Sam e a maldição de sangue (Thomas Bloor, Europa-América), já leu A Metamorfose e a Carta ao Pai, de Franz Kafka (Relógio d'Água).
Ganhou-se um leitor.

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

Mais notícias da Conferência Formar Leitores para Ler o Mundo

No Diário Digital vale a pena ir passando as páginas, acompanhando as declarações de António Prole. No final, o sonho que partilha, é a cereja no topo do bolo... No Expresso, as mesmas declarações, mas numa única página... A cereja também lá está.

Antecipação da Conferência Internacional de Promoção da Leitura

Rita Pimenta antecipou ontem, no Público, as linhas principais das comunicações de alguns dos oradores da Conferência Internacional de Promoção da Leitura. Para quem foi e quiser relembrar tópicos, para quem não foi e quiser ter uma noção do que por lá se passou, e vai passar hoje, pode aceder ao artigo aqui.

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Biblioteca Itinerante de Pombal de volta à estrada

Enquanto por Lisboa todas as atenções se centram no Congresso Internacional de Promoção da Leitura, cujo primeiro dia confirmou as altas expectativas, em Pombal a Biblioteca Itinerante regressa às visitas que foram interrompidas em Setembro, para remodelação dos serviços. Assim, todas as EB1 do concelho voltarão a receber a visita da carrinha, recheada de livros e propostas de actividades.
Fica o convite, aqui.

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Está quase...

É já amanhã o esperado e desejado Congresso Internacional de Promoção da Leitura, organizado pela Casa da Leitura, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Pelos rumores que correm, parece que vai estar sobrelotado, e de certeza que vai valer a pena!

Como se convencem adolescentes a participar numa comunidade de leitores?

Ontem eu e a Alexandra, da Biblioteca Municipal do Sobral de Monte Agraço, fomos à EB 2/3 fazer a divulgação da comunidade de jovens leitores que terá início (se tudo correr pelo melhor) no próximo dia 28 de Janeiro. Já o tinha feito em Montemor, em dois anos consecutivos, com resultados bem diferentes. Por isso, questionei-me acerca das estratégias: o que dizer, como dizer... Tinha lido algumas linhas sobre o assunto e retive uma informação que me pareceu central. Quando mediamos uma comunidade temos de saber porque razão o fazemos. A razão, para mim, é simples: o desafio que mais me estimula é encontrar livros que possam interessar aos adolescentes, descobrir pequenas pérolas, procurar o livro certo para cada um, de acordo com o meu gosto e o meu conhecimento.
Então, decidi explicar o funcionamento da comunidade sem minimizar a leitura dos quatro livros propostos, deixando em aberto outras actividades. Houve alunos de duas turmas que fizeram perguntas sobre os livros, mostraram curiosidade em conhecer os títulos e os autores. Tentei não ter um discurso demasiado leve, demasiado bem disposto.
Quando faço este tipo de divulgação enfrento sempre o mesmo conflito: não esconder a essência da iniciativa e não afugentar o público. Ontem acho que a fidelidade ao projecto falou mais alto, e esse era o meu desejo. Aguardemos os resultados...

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

«Mediatus - o monstro do medo»

«O Mediatus costuma fazer uma visita à menina Inês. Entra de mansinho no seu quarto, todo catita e faz bu!, bu!, bu! Ele é muito gordo, a sua cara bolachuda, os seus dentes são muito afiados e os seus olhos muito abertos, enfim, muito assustador. Um dia, Inês, numa das suas muitas visitas, fez-lhe uma partida, com a sua pistola de água, (ah, ah, ah!) desfez o Mediatus.
Então ela nunca mais teve medo do monstro do medo, do Sr. Mediatus.»

Esta história foi criada pela Júlia e Inês Palmeira (de seis anos) na sessão para pais e filhos da Arte da Leitura de Pais para Filhos, em Mirandela, a partir da observação do livro Guia Familiar para os Monstros lá de Casa II (Stanislav Marijanovic, Dinalivro).

Leitura e escrita na Arte da Leitura em Mirandela

As adultas participantes na acção deste fim de semana, em Mirandela, eram mães atentas e interessadas em motivar os filhos para a leitura. Algumas delas, professoras do 1º ciclo, vinham também com algumas curiosidades de foro profissional, nomeadamente em relação à apresentação de livros infantis. Uma das questões abordada foi a da escrita. Da mesma forma que a relação com a leitura se transforma ao longo do crescimento, também a escrita parece afugentar os pré-adolescentes. Foram pelo menos três mães a partilhar a sua experiência: filhos curiosos e imaginativos, que tinham por hábito escrever espontaneamente a agora não o fazem com a mesma regularidade, ou que não produzem textos com a mesma qualidade quando estes são pedidos na escola, ou até que sempre escreveram poesia e agora abandonaram o género.
Discutimos o assunto e pareceu-nos possível criar um paralelo com a leitura.
O desafio de juntar letras, depois palavras, de acordo com uma ordem de sentido é um desafio que muitas crianças aceitam com entusiasmo. Começam a ganhar autonomia face ao escrito, que lhes possibilita descodificar e criar mensagens... é um poder imenso e desejado desde os tempos em que dependiam dos mediadores para chegar aos livros e a outras instruções. A relação com a fantasia, se foi sempre estimulada pelos mediadores, pode agora ser construída pelas próprias crianças, que se divertem criando personagens e mundos de aventura, tal como fazem quando brincam. Por volta dos 10, 12 anos, as crianças começam a abandonar as antigas brincadeiras e a despertar para outros interesses, de acordo com as novas experiências que vão tendo. Também os seus limites de compreensão se estendem, e assim alcançam universos até então desconhecidos. Ora, a produção escrita, enquanto reflexo do seu imaginário e dos hábitos quotidianos, sofre alterações. Estando ela associada à infância, deixa de fazer sentido, permanecendo nos mesmos moldes. Do mesmo modo como tentamos dar aos pré-adolescentes livros que vão ao encontro das suas exigências e os possam surpreender, também na produção do escrito devemos procurar alternativas às histórias de aventuras ou aos poemas. Porque não oferecer um diário, um caderno em branco para que o pré-adolescente escreva os seus projectos, guarde os seus segredos e confissões? Ou porque não incentivar um blogue para o seu grupo de amigos, onde todos possam colocar a música que estão a ouvir, registar a letra, uma fotografia, um comentário? Às vezes tendemos a lidar com o escrito como com o livro, no sentido da criação literária. E vemos o desinteresse dos pré-adolescentes pela escrita que vinham praticando como o desinteresse pela escrita, tout court. A escrita é um processo, um treino, uma manifestação. O que dela resulta é o menos importante. Por muito que as crianças escrevessem muito bem até há um ano ou dois, não podemos acalentar o sonho de que irão sempre escrever assim. Importante é escrever, não abandonar o processo e o gosto pelo acto, seja em suporte de papel, seja em suporte electrónico, seja num registo, seja noutro completamente diferente.
No decurso da reflexão conjunta, partilhámos esta convicção. E, não fora os exemplos concretos, aqueles que só conhecemos pelo diálogo, não teríamos nós próprios pensado muito no assunto. As acções são enriquecedoras por isso, são todas diferentes entre si, e em todas acontece algo que nos permite continuar a pensar.

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Decisões difíceis...


Na Fnac, depois de muitas hesitações, decidimos trazer o Pela Floresta, de Anthony Brown.
Ficaram a aguardar uma nova oportunidade outros dois belos álbuns da Kalandraka...

Discurso do urso, Julio Cortázar
As aventuras da maçã vermelha, Jan Lööf

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Em visita a... Brasil que lê

Brasil que lê é um blog brasileiro onde encontramos notícias sobre o livro e a leitura. Ficamos a saber como funcionam projectos de financiamento, conhecemos iniciativas diversas de promoção da leitura como bibliotecas em autocarros e barcos, ou ainda acedemos a opiniões e testemunhos associados ao livro e à leitura. Há links para outros sites relacionados.

Biblioteca em construção: e se mudássemos qualquer coisa?

Hoje voltei à BE/CRE da EB 2/3 Conceição e Silva, em Almada. Estava expectante para ver como corria o Biblioteca em construção com uma turma do 7º ano. Correu mal. A turma, pelo que me disse a professora, é um bocadinho agitada, mas o seu comportamento ultrapassou em muito o que normalmente acontece em sala de aula. Haverá razões, claro. Uma delas, a necessidade de mostrarem o seu poder sobre os pares, num ambiente mais descontraído. A outra, o preconceito associado à leitura e a actividades com ela relacionadas. Mas, seja como for, não consegui motivá-los o suficiente. Nem no que respeita a escolha dos livros, nem na criação da sua própria biblioteca. Imagino que a acção seja demasiado infantil. Agora, passadas várias horas, penso que um desafio mais à sua medida seria escolherem livros uns para os outros. Assim: o grupo A tinha como tarefa escolher um livro apropriado a cada elemento do grupo B, que por sua vez escolheria para o grupo C, e por aí fora. Aí talvez funcionasse... Mas só agora me ocorreu esta ideia. É claro que os insucessos nos fazem reflectir mais que os sucessos. Fazem com que não nos resignemos a uma fórmula garantida, fazem com que observemos com mais atenção os comportamentos dos diversos públicos que vamos conhecendo. Em princípio, voltarei à escola lá para o final do mês. Desta vez, vou encarar uma turma do 9º ano. Talvez leve esta ideia avante. O desafio é entre pares, e cada grupo terá de apresentar as suas razões para as escolhas. Talvez assim procurem com mais atenção. E, eventualmente, ler-lhes-ei um texto do Gonçalo M. Tavares, do livro O Sr. Juarroz. Talvez faça um pequeno exercício de escrita criativa, ou um brainstorming sobre assuntos que lhes interessem, antes de iniciarem a escolha... Acho que vou experimentar. Talvez funcione melhor.

Quarta-feira, Janeiro 14, 2009

Coisas boas na Kalandraka...

Ao espreitar a página da Kalandraka tivemos novidades, das boas…

Leo Leoni está de volta assim como Anthony Browne. Na colecção Clássicos Contemporâneos, que faz juz aos autores, estes dois pesos pesados da literatura para crianças voltam a ter livros editados em português,

para bem de todos. As sinopses prometem, como sempre, abordar os sonhos, os afectos e as diferenças com a sensibilidade e a voz própria de cada um. De notar que em ambos os casos, texto e ilustração ficam a cargo dos autores.


Já na colecção Obra de Autor, reencontramos a ilustradora Rosa Osuna, cujo traço é imediatamente reconhecível para quem já se tenha deliciado com Avós. Desta vez, trata-se de Um presente diferente, e a avaliar pela capa, estas personagens tenderão mais para o cómico que o avô Manuel e a avó Manuela, naquela tarde em que mostraram que não há razão para que a velhice não seja bela.

A leitura na Alemanha, para não desanimarmos...

Acabou de sair um estudo sobre os hábitos de leitura na Alemanha. Há surpresas e confirmações. Fica um alerta aos pais portugueses e a curiosidade de os imigrantes lerem continuadamente em alemão.
Para conferir aqui, via Balcão de Biblioteca.

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

Arte da Leitura em Vila Velha de Ródão II

A acção foi surpreendente. A experiência de acções passadas permitiu-nos prever tendências, e presumir certezas onde não as há... As grandes revelações, desta vez, brindaram-nos a nós. Devíamos ter percebido, logo na 6ª feira, que algo de diferente se passava. Das nove participantes, uma era a Bibliotecária, e outra a professora responsável pela Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas de Vila Velha. Significa que a maioria das participantes estavam lá na sua condição de mães, o que é raro acontecer. Foi também reconfortante constatarmos que Graça Batista tem a sensibilidade necessária para divulgar as iniciativas da Biblioteca pessoalmente, conversando com as pessoas, convidando-as e incentivando-as a participar. Foram as próprias mães quem no-lo disseram, depois da própria Graça já ter partilhado a estratégia connosco. Outro aspecto a destacar foi a forma descontraída como resolveu todas as contrariedades apresentadas pelas mães, relativamente à sua disponibilidade.
No dia seguinte, para além das mães que já conheciamos da véspera, apareceu mais uma mãe, com o seu filhote, cujo contributo foi bastante positivo para o bom ambiente e participação espontânea das outras crianças. Começámos, como sempre, por convidar as crianças a escolher um de dois livros para ser lido em voz alta. A escolha foi inédita: venceu Donde vem a Pimenta? As mães riram-se perante a nossa surpresa. Tinhamos-lhes confidenciado que certamente seria É tão injusto! o primeiro livro a ser lido, como sempre acontecera. Mais, praticamente lhes assegurei que as crianças mais velhas escolheriam Donde vem a Pimenta?, e sairiam vencidas. Mas João, de dez anos, votou vencido no É tão injusto!
A leitura dos livros por ordem oposta não influenciou negativamente a sessão, mas serviu para voltarmos a tomar consciência de que, quando trabalhamos com pessoas, não há certezas absolutas e as estratégias não funcionam sempre da mesma forma.
Quando elaboraram a lista final (cada par escolheu cinco livros) dos livros que mais gostariam de ler, os pares optaram por obras diferentes, havendo apenas dois livros que se repetiram: Os miúdos do piolho/Os piolhos do miúdo e O sonhador. Também não é normal, mas quando as mães e tias (havia três com as sobrinhas) desabafaram que as negociações foram árduas, constatámos que a mensagem de 6ª feira tinha passado: as adultas não deram descanso aos mais pequenos.
A terminar lemos o É tão injusto!...

Domingo, Janeiro 11, 2009

Arte da Leitura em Vila Velha de Ródão

Voltámos à estrada no fim-de-semana passado. Sem incidentes meteorológicos. A recepção na Biblioteca Municipal foi muito calorosa. O espaço é muito bonito e funcional. Conjuga espaços amplos e salas de leitura comunicantes com uma vista privilegiada sobre o rio Tejo. Inaugurada em Outubro, a Biblioteca José Baptista Martins tem como vizinha a Casa de Artes e Cultura do Tejo. A gestão de programação é feita pela bibliotecária, Graça Martins, que assim optimiza recursos e aproxima públicos.
Na Biblioteca, há projectos de continuidade para todos os públicos:
Aprender na Biblioteca (informática, ler melhor, inglês);
Mente sã em corpo são destina-se a idosos e realiza-se quer na Biblioteca Municipal, quer em Lares de 3ª Idade. Trabalha-se a motricidade e realizam-se actividades de leitura recreativa.
Vamos ouvir os livros: aos sábados, a Hora do Conto é dinamizada por voluntários da comunidade local, que contam ou lêem uma história, na acolhedora sala do conto.
Este sábado coube-nos a nós... Escolhemos As Preocupações do Billy (Anthony Browne, Kalandraka) e apresentámos a obra de forma muito simples. Introduzimos o tema através do diálogo sobre preocupações (que preocupações tem o nosso público?), seguimos com a leitura do livro até à parcial resolução do problema pela avó e ensaiámos uma previsão do final em conjunto. Depois de inúmeras sugestões finalizámos a leitura. Foi a nossa primeira Hora do Conto e confirmámos as suas regras de ouro: conhecer bem e gostar muito da história que se conta ou lê. Todos o podem fazer.



Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

em visita a ...enCompassCulture

É um site sobre livros e leitura que visa reunir leitores de todo o mundo. Lá podemos encontrar listas de livros recomendadas para crianças, adolescentes e adultos, com sinopses e links para bibliografia; chats, fóruns de discussão; listas de autores; clubes de leitura e o acompanhamento virtual da leitura individual.
O que me levou ao site foi uma pesquisa sobre comunidades de leitura com adolescentes. Acabei por descobrir que O Rapaz que chutava Porcos, que tanto sucesso tem feito junto dos adolescentes com quem tenho trabalhado, é um dos livros que consta na lista destinada a este público.
Também pude aceder a alguns conselhos sobre a orientação das comunidades, inclusivamente ler algumas sugestões de actividades que se podem desenvolver em sessões com os mais novos (entre os 12 e os 14 anos).
O convite fica feito. É só entrar.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

II Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados


O município de Santiago de Compostela e a Kalandraka estão a promover o II Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados. O prazo para as inscrições sofreu um alargamento, podendo os trabalhos ser enviados até ao dia 28 de Fevereiro. Como se lê no ponto 1 do regulamento, o concurso está aberto a todas as obras susceptíveis de serem incluídas na categoria de álbum ilustrado: um livro em que a narração seja contada através de imagens e textos, de tal forma que ambos se complementem.
As obras poderão ser apresentadas em qualquer uma das línguas oficiais da Península Ibérica e deverão ser originais e inéditas. Os restantes artigos do regulamento podem ser lidos aqui.
Veremos quem sucede ao álbum Perto, de Natália Colombo, vencedor da edição do ano passado.

Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

Palavra Poema na Moita - Balanço

Destaco, de entre os cerca de trinta ateliers que realizei, a experiência que tive numa turma de meninos surdos, que frequentam o 3º ano do 1º ciclo. Foi fascinante entrar num mundo ao qual dificilmente se acede, e em que somos nós quem se esforça por perceber outro código.
Construímos uma casa com palavras, e li-lhes o álbum A minha mãe (Anthony Browne, Caminho), com ajuda de uma intérprete em língua gestual. A escolha deveu-se à dificuldade que os surdos manifestam em apreender sentidos simbólicos ou conceitos abstractos. Graças à expressividade e complementaridade das ilustrações, os meninos poderiam mais facilmente relacionar o discurso figurado do discurso denotativo. Gostaram muito do álbum, principalmente das imagens, o que me deixou a pensar se a exploração individual ou em pares de álbuns ilustrados não poderia ajudá-los a construir lógicas narrativas e até a aperfeiçoar os seus juízos críticos e afectivos.
Se puder, ainda voltarei à escola da Fonte da Prata, para visitar a professora e a turma. A alegria que se vive naquela sala já é rara nas outras que visitei. Estas crianças são mais inocentes e espalham sorrisos e felicidade. A professora igualmente. A sua permanente boa disposição, a sua entrega e dedicação fizeram daqueles 90 minutos um deslumbramento para mim.

Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

Nunca é demais recordar

Para começar bem o ano...

Domingo, Janeiro 04, 2009

Balanço - livros do ano

Álbuns


Nasceu a Bruaá, e com ela três livros de enorme simplicidade e sensibilidade. Eu espero (Davide Cali, Serge Bloch) terá sido, para mim, a maior revelação. Não de um ponto de vista crítico, mas em primeiro lugar pelo efeito que teve sobre a minha condição de leitora.

Descobri efectivamente Anthony Browne porque, com A minha mãe (Caminho), a atenção plástica e programática que o autor dá às relações e aos afectos tornou-se evidente e ultrapassou a empatia que tenho com As preocupações de Billy (Kalandraka) e atingiu toda a sua obra. Gostava de a ver integralmente traduzida para português.

Do Planeta Tangerina, O meu vizinho é um cão (Isabel Minhós e Madalena Matoso) revelou-se um jogo de complementaridade entre a enumeração de pormenores para a grande revelação final: um álbum pleno de humor. Nasce da insólita situação de contar a mudança de vários animais para um prédio, acompanhando os preconceitos que os outros moradores, nomeadamente os pais da narradora, demonstram em relação a eles. O desfecho é surpreendente e arrasa com a sensação de irrealidade que se prolonga por todo o livro, transformando-se numa parábola. O diálogo entre o que as janelas deixam ver e o que as paredes ocultam alimenta cada momento narrativo com a entrada em cena de novos vizinhos e novos hábitos. Cria-se assim uma expectativa de leitura, alimentada pelas cores vivas e pela associação visual do desenho ao tetris, que consolidam essa inverosimilhança lúdica. É um livro que merecia mais atenção.
A Antígona, pela mão da sua chancela Orfeu Negro, estreia-se também nos álbuns ilustrados, com a edição de O Livro Inclinado (Peter Newell), que obedece a um princípio de associação entre o movimento e a forma do livro. É um clássico da ilustração que só agora chega a Portugal e que demonstra a sua intemporalidade e referencialidade para a bd, a ilustração e a escrita para a infância.


Livros ilustrados

Um homem verde num buraco muito fundo (David Machado, Carla Pott, Presença) confirma a maturidade de David Machado e a sua identidade na escrita para crianças. A forma como transporta o leitor, a par das suas personagens, de um universo verosimil para um mundo de fantasia, continua a encantar a todos, que aceitam e desejam essa passagem. As ilustrações de Carla Pott fazem deste livro ilustrado um objecto de qualidade, integrando as imagens no texto, de tal forma que a mancha gráfica inverte a ideia de que a ilustração chegou depois do texto. É este que se fixa num espaço possível...
Amarguinha (Tiago Rebelo, Danuta Wojciechowska, Presença) começa por uma premissa facilmente identificável pelos mais novos: a diferença perante o grupo. O nome da menina resulta do facto de não gostar de doces. Esta informação cativa imediamente o pequeno leitor. Mas não só. O registo é simples sem se prestar ao forçado simplismo de alguns livros destinados ao público infantil. Conta histórias de amizade entre Amarguinha e outras crianças, um amigo de sempre de quem é forçada a separar-se e uma nova amiga que encontra no parque infantil. Uma experiência por que todas as crianças passam, nas diversas mudanças que vão enfrentando ao longo do crescimento. Amarguinha inaugura uma colecção que pode ser acompanhada pelos leitores numa fase de leitura muitas vezes difícil, quando começam a desejar livros com mais texto, mas ainda não têm ritmo de leitura ou maturidade para as Aventuras que se seguirão.
Em 2008 a edição de livros para crianças ganhou um novo fôlego, as livrarias dedicaram-lhes mais espaço nos escaparates e nas montras, os pais estiveram mais atentos, e os educadores e professores começaram a procurar os melhores critérios de escolha. A literatura para a infância em Portugal começa a entrar na rota da literatura universal.