Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Gerir o conflito

Na semana passada estive na EB 2/3 Bartolomeu Dias, em Sacavém, com o atelier Diz-me quem és, dir-te-ei o que lês. As três turmas do 8º ano não eram fáceis. Logo no contacto inicial com os primeiros alunos pensei que não seria possível motivá-los. Comecei a pensar nos livros que levava e a questionar as escolhas.
Um deles mostrou logo rebeldia, no diálogo inicial. À pergunta da praxe (Alguém gosta de ler?) respondeu que só gostava de biografias de jogadores. Perguntei-lhe qual tinha lido. Com relutância, lá foi dizendo: "a do Quaresma". Não desisti: quis saber se o livro já falava da fase do Inter ou era anterior. Ele lá explicou. Com a continuação do atelier a sua participação foi-se tornando mais assertiva, tendo até sido o porta-voz do grupo. Comentei que a letra dele era bonita. A princípio não acreditou, mas quando percebeu que era a sério agradeceu. No final a professora explicou-me que o aluno é míope mas não usa óculos porque os pais não têm como pagá-los. Por isso muitas vezes distrai-se e acaba por perturbar os outros.
No dia seguinte a temática do futebol voltou a cena, desta vez comigo a associar os jornais desportivos às preferências clubísticas. Enquanto o assunto não forem jogos de computador ou playstation ainda consigo entabular conversa. Com as raparigas a deixa foi um comentário acerca do programa televisivo America's Next Top Model.
No fim de contas, dois dos livros que existiam na Biblioteca da Escola foram requisitados após o atelier da manhã de 6ª feira, e no da tarde houve quem perguntasse se eles existiam. Apesar da agressividade de uns, do desinteresse de outros, assisti a alguns comportamentos docentes exemplares, como o de uma professora que controlava um aluno sistematicamente, aproximando-se dele e abraçando-o, falando-lhe ao ouvido para estar com atenção. E resultou.
Houve também um comentário de uma aluna que me surpreendeu. No final do 2º atelier de 5ª feira perguntei à turma porque é que os adolescentes nunca dizem que gostam de ler. E ela respondeu espontaneamente que "não é fixe, os betinhos é que lêem!" Agradeci a sinceridade e aprendi.

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