O mais recente álbum de João Pedro Mésseder e Luís Henriques surpreende. Quando se questiona cada vez mais as fronteiras das temáticas ditas infantis, assim como as devidas abordagens, eis que surge mais um forte argumento para contrariar catalogações oprimentes.
Não venham Já ou Uma casa virada do avesso(Caminho) é um texto poético, de pendor humorístico, reforçado por sentidos figurados e um refrão que marca o ritmo: «Não venham já,/ não venham já,/ que isto está tudo/ ao Deus dará:». A aflição do sujeito justifica a velocidade do compasso: uns amigos telefonam avisando que chegarão em breve para visitar a sua casa, e esta não está em condições de ser vista. Então, ao início da conversa seguem-se os argumentos da personagem para demonstrar o estado caótico da casa.
Mésseder, como sempre, não cede a facilitismos rimáticos e introduz associações inesperadas. Aproveita igualmente a semântica própria da habitação para estabelecer associações metonímicas «sujo, o espelho/ não vê os olhs/ e o candeeiro/ nem ideias dá.» O exagero agudiza a situação, mas nunca o texto seria tão estimulante sem as ilustrações de Luís Henriques.
Logo na capa deparamos com um homem envolto no fio do telefone, em trajes pouco comuns, que depois percebemos serem um pijama e um roupão. Estará deitado, descalço, com um alguidar atrás de si. A boca destaca-se na sua cara, reforçando a ideia de comunicação. Nada nesta imagem transmite harmonia ou tranquilidade.
Assim que começamos a leitura, deparamo-nos com formas exageradas que realçam a expressividade das situações. Os contornos dos objectos e das roupas definem curvas de movimento, corroborado pelos tracejados que dão volumentria ao espaço. Os detalhes figurativos, como as gavetas entreabertas das quais saem papeis e o braço de uma viola com uma corda solta, ajudam a criar uma sensação de catástrofe iminente. Tudo ondula, do tapete ao candeeiro, ainda na divisão inicial. Quando a personagem começa a percorrer a casa os tons laranjas dão lugar a uma paleta mais diversificada que serve para identificar objectos ou sensações, de acordo com o texto. Tudo ganha vida, culminando com a fuga da sanita e do tacho. A animização consegue-se através do exagero das formas curvas, mais uma vez. Persistindo no detalhe, neste álbum o ilustrador aproxima o leitor de cada momento numa espécie de zoom, contribuindo assim com a dimensão exagerada dos objectos para criar uma volumetria asfixiante. A imagem apenas foca a situação descrita na estrofe da página, sem qualquer informação adicional de contexto espacial. Na última página dupla desvenda-se o sentido da capa, com a reprodução da ilustração, agora ampliada e sem moldura: «Não venham já,/ nem devagar,/ que tropecei/ num alguidar,/ caí de borco/ no patamar;/ não venham hoje/ que hoje não dá.» Na guarda que antecede a contracapa o telefone, fio condutor do discurso visual, descansa finalmente. É ele que, no meio de cada caótica descrição, remete o leitor para o motivo do texto: a tentativa do homem impedir que visitem a sua casa.
É certo que qualquer adulto, tendo em conta as experiências decorrentes da idade, já passou por situações semelhantes. É por isso inevitável que sinta alguma identificação com o tema e sorria, cumprindo assim a sua função de leitor. Mas acontecerá o mesmo com uma criança? Não poderá ser este um álbum feito a pensar nos adultos, apesar de se destinar aos mais pequenos?
Estas observações são frequentes em relação a outros livros. Para tirar todas as dúvidas, fica um primeiro esclarecimento: o texto teve origem num projecto escolar de escrita colaborativa, constando alguns vestígios do mesmo na 7ª e 8ª estrofes do poema, segundo nota introdutória de João Pedro Mésseder. O segundo esclarecimento é de carácter meramente literário: um livro bom não tem idades definidas, tem sim um leitor modelo que será aquele que dele se aproprie. É demasiadamente presunçoso da parte dos adultos afiançarem que há determinados temas de que as crianças não gostam ou não percebem. Este livro é mais um contributo para a mudança de mentalidades no que respeita ao álbum de recepção infantil.

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