Vem a propósito. Quem se aventura a escolher uma estrada nacional em detrimento da auto-estrada? Haverá uma intenção? Se tivessem de apostar entre um casal de avós com o seu neto e uma mãe com os dois filhos, quais dos grupos optaria por cada uma das hipóteses?
Onde nos leva a A1? E a N126? Existem ambas? Cruzam-se? É possível que tenham troços similares entre localidades? Começam ou terminam no mesmo ponto viário?
Imaginem agora duas viagens sobrepostas, embora em sentidos diferentes, que podemos acompanhar, escolhendo uma ou outra.
Desvende-se o mistério:
É um dos mais recentes álbuns do Planeta Tangerina. Não tem contracapa e sim duas capas, invertidas. O azul e o vermelho orientam cada uma das narrativas assegurando assim a legibilidade de cada viagem. O movimento e o diálogo tecem-se pelo uso da cor e pelo recurso ao contorno sobre o fundo branco da folha, ou da cor alternativa da outra narrativa. A cor ajuda a distinguir o percurso rectilíneo da auto-estrada das curvas da estrada nacional, assim como estabelece relações de aproximação ou afastamento aos carros e às personagens. O efeito desta sobreposição cria expectativas ao mesmo tempo que obriga o leitor a aceitar a impossibilidade de ler cada página na sua totalidade. Este jogo entre o que é possível e o que se deseja ler confere à própria leitura uma nova dimensão, nomeadamente de coordenação motora. Parece óbvio, mas com este álbum recuperamos a consciência da mecânica da leitura.
A narrativa é simples, tomando o ponto de vista das crianças, que assumem o papel de narrador e relatam cada passo da sua viagem. A nossa experiência remete-nos imediatamente para situações vividas repetidamente e outras que eventualmente aconteceram ocasionalmente ou nunca vivenciámos. Para além das inevitáveis paragens em bombas de gasolina ou estações de serviço, estes narradores atentos destacam no seu testemunho alguns comentários dos adultos ("esta gente é louca" ou "Há muito tempo, a esta hora, isto era aqui uma multidão..."), ou até sensações ou pensamentos próprios ("Olhamos para lá da janela e não nos sentimos nada bem-vindos. Uma muralha de metal colorida impede-nos de ver o lado de lá. Quem mora aqui não gosta de nos ver. Quem mora aqui não gosta de nos ouvir.") As duas viagens não são por isso meros paradigmas do que pode representar esta experiência para uma criança. Pelo contrário, a dialéctica que se estabelece no álbum está repleta de segundos sentidos, como se verifica através da oposição entre o ar condicionado do carro dos avós e as janelas abertas do carro da mãe. Ou, noutra perspectiva: a oposição entre a impossibilidade de abrir as janelas na auto-estrada e o prazer de as ter abertas numa estrada nacional, onde a velocidade inferior o permite (mas que é mera conjectura, nada o afirma no texto). A argumentação não funciona da mesma forma para os dois modelos, e o argumento da rapidez e do tempo de lazer à chegada não compensa o piquenique, a pausa para o café e os matraquilhos, a disponibilidade daqueles com quem a família se cruza e a quem pede informações, até o tão politicamente incorrecto cigarro que a mãe fuma. Há ainda a paisagem, que a certo momento parece ser a mesma que a criança que viaja na auto-estrada alcança, tecendo a seguinte consideração: "Passamos por cima de uma estrada antiga, que parece abandonada, e falamos das viagens de antigamente." O jogo visual leva-nos a imaginar que é a estrada por onde passa a outra família, mas não o sabemos. Nem sabemos sequer se há simultaneidade nestas viagens, porque haverá? O efeito da partilha do espaço e do mesmo registo discursivo (textual e visual) cria ambiguidades que alimentam a retórica do álbum, provocando no leitor uma sensação de originalidade conseguida.
Boa viagem!


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