Na segunda parte deste balanço, recuperamos alguns momentos que têm marcado o panorama da edição do livro infantil.
Ao longo dos últimos três anos questionámo-nos diversas vezes sobre a validade dos nossos projectos, principalmente quando visitávamos espaços cuja dinâmica funcionava em sincronia com as ideias, e em que as pessoas dominavam os recursos necessários para as levar à prática. Houve por isso alturas em que pensámos que já não se justificava o nosso trabalho. Hoje pensamos o contrário. Não por termos concluído que os mediadores estão a regredir na sua qualidade, muito pelo contrário. Precisamente porque o esforço se tem acentuado e todos, especialmente os professores interessados, têm demonstrado capacidade para formar leitores, é fundamental que todos permaneçamos, para trocar experiências e para sentir a evolução que acreditamos estar em marcha.
Há três anos notávamos um maior desconhecimento por parte dos mediadores acerca do livro infantil. Hoje já é raro encontrar um educador ou professor que não conheça a Kalandraka.
As Feiras do Livro multiplicaram-se quer pelas Bibliotecas Municipais, quer pelas escolas. O mercado do livro infantil tornou-se apetecível porque vende. De tal forma que é muitas vezes o livro infantil que leva os adultos a comprarem um livro para si, depois de entrarem na livraria com as crianças. É certo que a imagem do livro infantil tem vindo a mudar, na última década, mas nos últimos anos Portugal aproximou-se do mundo, editando clássicos que nunca tinham chegado aos leitores portugueses. O crescente prestígio dos ilustradores nacionais projectou o livro infantil e chamou a atenção de editores, livreiros e do público adulto em geral.
A exposição Ilustrações.pt, que esteve patente na Feira do Livro Infantil de Bolonha no ano passado, seguindo depois para Paris, Léon e Londres tem conferido visibilidade aos 13 ilustradores que integram o grupo e tem estimulado o interesse internacional não só pelo seu trabalho mas igualmente pela edição portuguesa de álbuns ilustrados.
Por cá, ganhou peso a editora Planeta Tangerina, que tem vindo a afirmar-se como uma chancela inovadora e de inquestionável qualidade gráfica, com textos literários que rasgam e questionam as fronteiras daquilo que se costuma designar como livro infantil.
Nasceu a Bruaá, incontornável apesar da sua curta vida, pelos três preciosos álbuns que traduziu e editou, permitindo aos portugueses aceder a livros mais arrojados e menos convencionais.
A Antígona já conta com dois álbuns na sua chancela Orfeu Negro e a Tinta-da-China continuou a apostar em clássicos universais, também apropriados pela literatura infanto-juvenil.
As editoras de referência começaram a editar livros fundamentais para a história da literatura e da leitura, levando ao questionamento da catalogação por idades e reforçando as dúvidas acerca do conceito de literatura infantil e juvenil. Por outro lado, aconteceu nesta área o mesmo que se verificou na edição em geral, com a produção em série de fórmulas de qualidade duvidosa, desde álbuns que reproduzem fotogramas das séries animadas até textos redundantes e simplificados. O mesmo se passa com as sagas muito apreciadas por adolescentes, que envolvem mistério, fantasia, terror e amor.
Assistimos à concentração do mercado, com a Caminho, Asa, D. Quixote e Texto (todas com catálogo infantil) sob o domínio do Grupo Leya. Até agora, diga-se em abono da verdade, a Caminho continua a editar bem, mantendo os padrões de qualidade na compra de direitos e na selecção de alguns livros menos óbvios.
As mudanças radicais no sector do livro e as mentalidades reinantes ergueram e derrubaram a monumental Byblos. Em resposta, surgiram novas pequenas livrarias, acolhedoras e com programação, cujas secções do livro infantil têm a relevância que merecem, com direito a montras partilhadas e edições com mais de seis meses.
Abriu no início do ano lectivo um curso de Pós-Graduação em Livro Infantil, na Universidade Católica, com módulos que abrangem várias áreas de estudo e trabalho (história, texto, ilustração, edição, mediação, selecção).
Ainda faltará para assistirmos a uma emancipação da hibridez do juvenil, mas no que respeita ao infantil, estamos a vivê-la a cada dia. Começa a ficar para trás o preconceito de inferioridade da escrita para crianças, ou a associação entre a leitura e a pedagogia ou a moral.
Sexta-feira, Abril 24, 2009
Três anos de Bicho dos Livros II
Publicada por Andreia em 14:48
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