Os piolhos do miúdo/ Os miúdos do piolho; Rita Taborda Duarte, Luís Henriques, Caminho
O conceito de reversibilidade ganha neste álbum novas possibilidades: parte-se de uma ideia arquetípica - os piolhos habitam a cabeça das crianças e provocam comichão - para se desenvolverem duas pequenas narrativas simétricas mas em sentidos opostos. Parece confuso? Mas não é. Começamos pela capa, que neste caso são duas e não uma. Porque o álbum alberga duas histórias, encontramos dois títulos. Porque numa delas os piolhos habitam a cabeça do miúdo e noutra são os miúdos que habitam a cabeça do piolho, quando acabamos a primeira (aleatoriamente), temos de virar o livro ao contrário, para ler a segunda. O mesmo se passa com as capas. O desafio começa então antes sequer de abrir o livro e obriga o leitor a questionar-se sobre qual a razão para tal apresentação.
Os piolhos são sempre as personagens principais, quer na posição de inquilinos, quer na de proprietários. As narrativas são simples e a sua magia reside na versificação que lhes confere um ritmo musical. As expressões populares ajudam à dinâmica humorística das narrativas, salvando os piolhos do pente, ou sujeitando o piolho de sangue real à vergonha de ter miúdos na cabeça a provocarem-lhe comichão.
Obrigado a todos!; Isabel Minhós, Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina
Uma exclamação que acentua o entusiasmo e a sinceridade de um agradecimento, feito por uma criança a todos os que a ajudam a aprender a viver. A enumeração de ideias e constatações parece descrever situações da vida deste menino. Mas quem o faz é a imagem, que nos contextualiza no quotidiano simples de cada acto. É neste diálogo que assenta a magia do álbum, pois sem ele a segunda grande mensagem não passaria: cada nova aprendizagem da personagem mostra-nos que aprender é saber responder de forma adequada a cada situação. Por isso, a mãe e o pai, ou o avô e a avó, ensinam coisas aparentemente contraditórias à criança. Que a situação nos permite perceber não serem contraditórias e sim fragmentos. Com cada fragmento percebemos quem é esta voz que não nos conta que nem sempre lhe apetece tomar banho ou que gosta da companhia do seu gato, ou até que acha graça à roupa de vampiro do seu primo. O subtexto é rico nessa construção, cujos vazios abrem espaços para enriquecer esta vida à nossa imagem. O processo de inferências funciona aqui magistralmente.
O quê, que, quem; Eugénio Roda, Gémeo Luís, Edições Eterogémeas
Metáforas que descrevem a família: pais, avós, tios, primos, padrinhos, netos, irmãos... As pessoas importantes, que fazem, trazem ou guardam coisas especiais... Um poema em prosa, cada página dupla é um momento de resposta às perguntas do título, criando definições em cadeia, a partir da primeira metáfora, sempre relacionada com um elemento familiar. A desconstrução narrativa cria situações oníricas e simbólicas, que se estranham, tal como acontece com as ilustrações. Mas as palavras são também estranhamento, e a beleza da decifração e espanto impõe-se à lógica descritiva. A união das figuras por longas curvas ou estreitos laços que a espaços se engrossam em corpos e definem perfis traduz essa união e o movimento de aproximação e umbilicalidade afectiva. O poético não reside apenas no verso, muito menos na rima. A resposta às perguntas do título, que recordam os eixos principais do texto jornalístico, fogem do real e procuram uma verdade escondida atrás das palavras que usamos todos os dias sem cuidado; um elogio àqueles de quem gostamos.
Quinta-feira, Março 26, 2009
Histórias contadas de várias maneiras iii
Publicada por Andreia em 02:47
Etiquetas: Livros, Pais e filhos
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