
Os Diários de raparigas adolescentes parecem uma praga nas estantes da dita literatura juvenil. Não há autor ou autora que se preze que não contribua com o seu diariozinho. E muitos deles, em consequência, reflectem uma superficialidade previsível, entre as críticas aos pais, os desabafos ingénuos, a gíria forçada, as preocupações com a aparência e a porção conveniente de realismo social.
O caso de O Diário de Sofia & C.ª aos 15 anos, de Luísa Ducla Soares,(Civilização) é diferente, como também é comum aos bons autores. Apesar da falta de originalidade do argumento inicial -«Deram-me este Diário quando fiz anos. Tive tal desilusão quando o desembrulhei que me apeteceu atirá-lo para o caixote do lixo.» - que reencontramos alguns anos mais tarde em A Vida nas Palavras de Inês Tavares (Alice Vieira, Caminho), o que se lhe segue é uma prosa surpreendente. Que Luísa Ducla Soares praticava com êxito humor, todos os que conhecem a sua obra infantil o sabem. A questão está na adequação do discurso que não se verga a complacências, excessos ou moralismos. Chega até a ser estranho ao adulto 'ouvir' Sofia a chamar velhos aos idosos com uma indiferença mais do que comum, mas que não é, decididamente, politicamente correcta.
«Logo vou ter cá 2 avós, 4 tios, 7 primos parvos, além de uns velhos solitários que vêm sempre aterrar aqui.»
Para além da mestria do estilo, também a narrativa está bem proporcionada, entre a crítica ao colégio privado, o acompanhamento do problema de toxicodependência de Bebé, que acaba por se suicidar, as juras de amizade e uma paixão mal disfarçada e mal interpretada por Miguel.
Finalmente, as apreciações sobre os adultos traçam um retrato fiel do comportamento das famílias para com os adolescentes, impedindo-os de se libertarem, apelando a chantagens que ora resultam, ora dão um péssimo resultado. Um dos exemplos mais evidentes é o da passagem de ano.
Assumir a voz de alguém tão distante de nós no tempo, quer em experiência, quer em contexto, não é fácil. Por isso é tão difícil escrever bem, com inteligência, um diário de um ou uma adolescente. O livro foi originalmente publicado em 1994, por isso sentimos-lhe a falta dos telemóveis e estranhamos a referência às cassetes audio. A autora resistiu à tentação de, nesta edição revista, proceder a actualizações temporais desnecessárias.
Porque há coisas que nunca mudam:
«Estou farta de ouvir dizer que os adolescentes deviam ser fechados num armário para só serem soltos ao chegarem a adultos. Somos incómodos, irreverentes, o nosso prazer é contrariar as regras deles, ignorá-los, desconbrirmos o mundo por nós próprios.
Como eu era parva e dependente quando era criança (e eles me adoravam)! Como são acomodados, vencidos e mecanizados os adultos! Então os velhos, que se consideram sábioa, donos da experiência... As criancinhas e os maiores de 25 anos é que deviam ser guardados no armário enorme dos objectos inúteis, enquanto nós, sozinhos à solta, vivíamos a nossa vida. A nossa força é como a música alta do rock da pesada que eles não suportam. Dizem que somos uma geração perdida, que não temos ideais. E os deles, em que deram? Se a sociedade fosse organizada por nós, não havia tantos hipócritas, tantos mortos-vivos, tantos congelados.
Nós (eu não) tomamos droga, mas eles é que a inventaram e vendem. Nós às vezes somos violentos mas eles é que inventaram as guerras e somos nós, os novos, que temos de dar o corpo ao manifesto. Nós temos a mania do consumo mas eles é que fabricam as inutilidades e fazem publicidade para comprarmos.
A propósito, vi uma T-shirt preta, linda, mas estou tesa que nem um carapau. Se não tivesse trazido hoje uma negativa e um pedido de justificação de falta à primeira aula, ainda cravava o meu pai. Mas assim...» (pp. 26, 27)
ps. não confundir com a colecção de Os Livros do Diário de Sofia, que foi depois adaptada para a televisão.